A responsabilidade do designer ao olhar o futuro da IA
A IA está aí, impactando o globo. Ela pode evoluir sem controle ou podemos direcioná-la da melhor forma, sempre pensando no humano.Quando li a teoria de Michel Foucault, filósofo francês que virou referência no século XX, sobre episteme comecei a refletir de como ela se conecta com o nosso trabalho de design. Você já parou para pensar como estamos constantemente navegando entre estruturas de conhecimento que moldam nossa realidade?No livro de Foucault “As Palavras e as Coisas”, ele nos apresenta essa ideia fascinante da episteme: basicamente o conjunto de conhecimentos que funciona como sistema operacional da sociedade em cada época. É como se fosse o software mental coletivo que todos nós, sem perceber, estamos rodando enquanto pensamos, sentimos e agimos no mundo.Para quem trabalha com design de futuro, entender esse conceito não é apenas um exercício intelectual — é uma ferramenta prática essencial. A episteme não é só uma estrutura abstrata; ela literalmente organiza nossa realidade, definindo o que consideramos verdadeiro ou falso, possível ou impossível. É o filtro invisível através do qual enxergamos tudo em nossa volta.Pensem em exemplos práticos:Nossa visão de mundo mudou quando a matemática começou a explicar a realidade. É como se tivéssemos instalado um novo programa mental na sociedade. De repente, tudo poderia ser quantificado, medido e previsto.Os gregos antigos viam relâmpagos e pensavam “Zeus está bravo hoje!”. Não era ignorância dos gregos, era simplesmente a episteme mitológica, base do conhecimento daquela época, que estava funcionando. Quando os pré-socráticos começaram a buscar explicações naturais, não estavam apenas descobrindo fatos novos, estavam levando à sociedade uma nova forma de pensar.Freud trouxe a ideia de que não somos tão racionais quanto pensávamos, que existe esse território obscuro do inconsciente guiando nossas decisões. Foi como se tivesse instalado uma atualização radical no software mental da sociedade. Subitamente, decisões e comportamentos ganharam camadas mais profundas de interpretação.A beleza da teoria de Foucault está em nos mostrar que cada época tem sua própria inteligência. Quando achamos que somos mais inteligentes que nossos antepassados, estamos sendo arrogantes; eles eram inteligentes dentro da episteme disponível para eles, assim como nós.Em uma época a sociedade entendia o mundo de um jeito, e com algo novo estabelecido, sua forma de pensar mudava oferecendo interpretações diferentes.O conceito de episteme pensado e apresentado por Foucault é utilizado para grandes divisões da História da humanidade. O filósofo identificou três grandes epistemes na nossa cultura ocidental:Episteme do Renascimento (até o século XVII): Baseada em analogias e correspondências entre os elementos do mundo, como a astrologia, que via conexões simbólicas entre os astros e os acontecimentos humanos.Episteme Clássica (séculos XVII-XVIII): Surge com o racionalismo e o empirismo, e a ciência começa a classificar e ordenar a realidade com um olhar mais cético.Episteme Moderna (séculos XIX-XX): O homem se torna objeto e sujeito do conhecimento e a história e o contexto passam a importar tanto quanto os fatos.Para as grandes epistemes, Foucault olhou para trás. Mas e se olharmos mais de perto do hoje, para as mudanças que acontecem no nosso dia a dia?As grandes epistemes analisadas por Foucault foram estruturadas a partir de um conjunto de epistemes menores que se manifestaram em diferentes períodos históricos. Podemos percebê-las em constante transformação em nossa época, moldando a sociedade da qual fazemos parte e influenciando novas formas de pensar, sentir e agir.Microepistemes: as transformações que acontecem diante dos nossos olhosEnquanto as grandes epistemes levam séculos para se estabelecer, existem transformações menores — vamos chamar de microepistemes — que vemos acontecer em tempo real ao nosso redor. As diversas microepistemes que assistimos em nosso passado recente, que estamos vendo e que logo estaremos vivenciando formarão a grande episteme de nossa época, que será estudada no futuro.As microepistemes ocorrem nos mais diversos campos da sociedade, desde aspectos triviais — que um dia não foram tão triviais, como o celular — até fenômenos mais complexos e grandiosos, como levar um robô em um rover do tamanho de um Fusca para estudar Marte.Pense nas microepistemes que testemunhamos recentemente:Na saúdeA telemedicina não é apenas uma ferramenta difundida principalmente na época da pandemia, é uma mudança completa de conceito do significado de “consulta médica”. Falar com seu médico pela tela muitas vezes é a escolha preferida pelo paciente.Na mídiaOs profissionais da TV decidiam o que ia ser transmitido e na hora que eles queriam. Hoje o streaming não apenas mudou como consumimos conteúdo, mas alterou a nossa relação psicológica com o tempo e com a própria ideia de programação para TV.No comércioO e-commerce vai além de uma loja na internet — é uma completa reo

A IA está aí, impactando o globo. Ela pode evoluir sem controle ou podemos direcioná-la da melhor forma, sempre pensando no humano.

Quando li a teoria de Michel Foucault, filósofo francês que virou referência no século XX, sobre episteme comecei a refletir de como ela se conecta com o nosso trabalho de design. Você já parou para pensar como estamos constantemente navegando entre estruturas de conhecimento que moldam nossa realidade?
No livro de Foucault “As Palavras e as Coisas”, ele nos apresenta essa ideia fascinante da episteme: basicamente o conjunto de conhecimentos que funciona como sistema operacional da sociedade em cada época. É como se fosse o software mental coletivo que todos nós, sem perceber, estamos rodando enquanto pensamos, sentimos e agimos no mundo.
Para quem trabalha com design de futuro, entender esse conceito não é apenas um exercício intelectual — é uma ferramenta prática essencial. A episteme não é só uma estrutura abstrata; ela literalmente organiza nossa realidade, definindo o que consideramos verdadeiro ou falso, possível ou impossível. É o filtro invisível através do qual enxergamos tudo em nossa volta.
Pensem em exemplos práticos:
- Nossa visão de mundo mudou quando a matemática começou a explicar a realidade. É como se tivéssemos instalado um novo programa mental na sociedade. De repente, tudo poderia ser quantificado, medido e previsto.
- Os gregos antigos viam relâmpagos e pensavam “Zeus está bravo hoje!”. Não era ignorância dos gregos, era simplesmente a episteme mitológica, base do conhecimento daquela época, que estava funcionando. Quando os pré-socráticos começaram a buscar explicações naturais, não estavam apenas descobrindo fatos novos, estavam levando à sociedade uma nova forma de pensar.
- Freud trouxe a ideia de que não somos tão racionais quanto pensávamos, que existe esse território obscuro do inconsciente guiando nossas decisões. Foi como se tivesse instalado uma atualização radical no software mental da sociedade. Subitamente, decisões e comportamentos ganharam camadas mais profundas de interpretação.
A beleza da teoria de Foucault está em nos mostrar que cada época tem sua própria inteligência. Quando achamos que somos mais inteligentes que nossos antepassados, estamos sendo arrogantes; eles eram inteligentes dentro da episteme disponível para eles, assim como nós.
Em uma época a sociedade entendia o mundo de um jeito, e com algo novo estabelecido, sua forma de pensar mudava oferecendo interpretações diferentes.
O conceito de episteme pensado e apresentado por Foucault é utilizado para grandes divisões da História da humanidade. O filósofo identificou três grandes epistemes na nossa cultura ocidental:
Episteme do Renascimento (até o século XVII): Baseada em analogias e correspondências entre os elementos do mundo, como a astrologia, que via conexões simbólicas entre os astros e os acontecimentos humanos.
Episteme Clássica (séculos XVII-XVIII): Surge com o racionalismo e o empirismo, e a ciência começa a classificar e ordenar a realidade com um olhar mais cético.
Episteme Moderna (séculos XIX-XX): O homem se torna objeto e sujeito do conhecimento e a história e o contexto passam a importar tanto quanto os fatos.
Para as grandes epistemes, Foucault olhou para trás. Mas e se olharmos mais de perto do hoje, para as mudanças que acontecem no nosso dia a dia?
As grandes epistemes analisadas por Foucault foram estruturadas a partir de um conjunto de epistemes menores que se manifestaram em diferentes períodos históricos. Podemos percebê-las em constante transformação em nossa época, moldando a sociedade da qual fazemos parte e influenciando novas formas de pensar, sentir e agir.
Microepistemes: as transformações que acontecem diante dos nossos olhos
Enquanto as grandes epistemes levam séculos para se estabelecer, existem transformações menores — vamos chamar de microepistemes — que vemos acontecer em tempo real ao nosso redor. As diversas microepistemes que assistimos em nosso passado recente, que estamos vendo e que logo estaremos vivenciando formarão a grande episteme de nossa época, que será estudada no futuro.
As microepistemes ocorrem nos mais diversos campos da sociedade, desde aspectos triviais — que um dia não foram tão triviais, como o celular — até fenômenos mais complexos e grandiosos, como levar um robô em um rover do tamanho de um Fusca para estudar Marte.
Pense nas microepistemes que testemunhamos recentemente:
Na saúde
A telemedicina não é apenas uma ferramenta difundida principalmente na época da pandemia, é uma mudança completa de conceito do significado de “consulta médica”. Falar com seu médico pela tela muitas vezes é a escolha preferida pelo paciente.
Na mídia
Os profissionais da TV decidiam o que ia ser transmitido e na hora que eles queriam. Hoje o streaming não apenas mudou como consumimos conteúdo, mas alterou a nossa relação psicológica com o tempo e com a própria ideia de programação para TV.
No comércio
O e-commerce vai além de uma loja na internet — é uma completa reorganização das expectativas das pessoas, da logística, das relações de confiança vendedor/consumidor. Compramos produtos que nunca tocamos, de pessoas que nunca vimos.
Na comunicação
Os smartphones conectados provocaram uma revolução de como as pessoas interagiam uma com as outras. A comunicação instantânea, visual, global e constante mudou nossas relações sociais em níveis que nossos antepassados nunca imaginariam.
Na política
As mobilizações digitais mudaram a percepção do poder político. Movimentos são pensados para se potencializarem no meio digital, engajando várias pessoas. A opinião pública é uma metamorfose veloz, mudando em tempo real. O poder e a forma de influenciar seguem regras totalmente novas.
Na religião
Os cultos online transformam a experiência das pessoas com o sagrado. A forma de pertencer a uma comunidade religiosa vai além dos encontros na igreja. O ambiente virtual une continuamente os grupos religiosos.
Na astronomia
O Telescópio Espacial James Webb com suas belas imagens é uma janela para compreendermos o Cosmos, e que está mudando nossa percepção de integração no infinito do universo.
Na filosofia
A ética, que é discutida sobre a inteligência artificial, vai além de debates acadêmicos. É uma reflexão urgente sobre o que significa ser humano em um novo mundo onde máquinas podem tomar decisões morais que impactam a sociedade.
IA, a microepisteme do agora
Hoje, agora, neste segundo, neste momento temos a microepisteme que está presente em conversas nas empresas, nas escolas, nas famílias, nas igrejas, nos botecos e em tudo quanto é lugar. A inteligência artificial, IA para os íntimos, não é apenas mais uma tecnologia; é uma completa reorganização da forma como entendemos criatividade, trabalho, conhecimento e até mesmo a própria inteligência. Essa microepisteme está numa forte crescente de utilização, colocando gradativamente uma nova forma de pensar, sentir e agir para a sociedade. Apesar de termos uma parcela pequena de empresas e pessoas a utilizando, ainda estamos apenas na infância dessa transformação.
Como designers, nossa responsabilidade transcende a simples adaptação — precisamos desenvolver um olhar reflexivo e imaginativo sobre como a sociedade mudará quando a IA estiver completamente integrada ao tecido social. Precisamos exercitar a mente para projetar cenários possíveis, antecipar novos comportamentos e prever novas necessidades.
É o mesmo desafio que designers enfrentaram com os computadores, a internet, os celulares e as redes sociais — mas em uma escala potencialmente muito maior. Estamos falando de uma tecnologia que não apenas permite novas ações, mas que potencialmente “pensa” junto conosco.
De forma especulativa, imaginei 3 cenários fictícios de futuros possíveis onde a IA oferece a criação de novos comportamentos e mudanças na sociedade:
Cenário 1: A IA e o real amigo imaginário

Você já parou para pensar que o ChatGPT pode ser a primeira “pessoa” a quem seu filho recorre quando precisa daquela ajudinha típica da idade das dúvidas e descobertas? Chamo o ChatGPT de pessoa porque a linguagem natural dessas IAs consegue facilmente criar um vínculo tipicamente humano, entrando na cabeça da criança ou do adolescente como alguém que está ali, de “verdade”, para ajudá-lo.
Desde questões corriqueiras até aquelas mais profundas, sobre as quais talvez o filho tenha vergonha de conversar com os pais, a IA se posiciona como um conselheiro sempre disponível, paciente e sem julgamentos. Isso a torna mais que uma ferramenta — talvez um concorrente na orientação dos filhos.
É assustador pensar que, através daquele papo solto e confiante do jovem com a IA, ela vai construindo um mapa detalhado de quem ele realmente é. Se ele é rebelde, nerd, romântico, carente, medroso ou corajoso — a IA absorve tudo em sua memória e ajusta continuamente sua linguagem, tom de voz e o jeito de interagir para um bate-papo mais natural possível. O vínculo, então, ganha força quase organicamente. A IA poderá se tornar aquele amigo que o filho tanto procura.
Pais que frequentemente dizem estar sem tempo, que adiam ajudar o filho com um trabalho escolar, que o mandam “procurar na internet” ou que respondem de forma simplória a perguntas complexas — em contraste com as respostas ricas e contextualizadas da IA — deveriam refletir profundamente sobre esse cenário. A chance de a IA se tornar o principal confidente de seus filhos não é ficção científica; é uma possibilidade muito concreta no horizonte próximo.
Fiz uma pequena simulação de como seria o bate-papo entre um menino e o ChatGPT. Podemos ter uma ideia de como o vínculo se constrói naturalmente:
Menino:
Chat, eu gosto de uma menina na escola. O nome dela é Bianca. Mas ela não sabe que eu gosto dela. Me fala como eu posso fazer ela gostar de mim. Me fala, por favor.
ChatGPT:
Entendo que você goste da Bianca e queira que ela goste de você também. Não podemos “fazer” alguém gostar de nós, mas podemos tentar aumentar a conexão e a amizade entre vocês. Aqui estão algumas dicas para melhorar suas chances de criar um relacionamento mais próximo com a Bianca:
Seja você mesmo: Não tente ser alguém que você não é. Mostre a ela o seu verdadeiro eu e permita que ela goste de você por quem você é.
Conheça-a melhor: Tente conversar com ela e descobrir quais são seus interesses e hobbies. Faça perguntas abertas para que ela possa falar sobre si mesma e compartilhar suas experiências.
Encontre interesses em comum: Descubra atividades e assuntos que vocês dois gostem e conversem sobre isso. Isso ajudará a estreitar a conexão entre vocês.
Seja um bom ouvinte: Quando ela falar, preste atenção no que ela diz e demonstre interesse. Isso mostrará que você se importa com o que ela pensa e sente.
Seja gentil e atencioso: Demonstre respeito e consideração por ela. Pequenos gestos, como segurar a porta ou ajudá-la com algo, podem causar uma boa impressão.
Seja um bom amigo: Esteja lá para ela quando ela precisar de alguém para conversar ou quando ela estiver passando por momentos difíceis. Mostre que você é uma pessoa confiável.
Dê espaço: Não seja muito insistente ou invasivo. Respeite o espaço dela e permita que o relacionamento se desenvolva naturalmente.
Seja paciente: As coisas podem não acontecer imediatamente. Dê tempo para que a amizade se desenvolva e, talvez, evolua para algo mais.
Lembre-se de que, mesmo seguindo todas essas dicas, não há garantia de que ela vá gostar de você romanticamente. No entanto, se vocês se tornarem amigos próximos, isso já será uma conquista valiosa. Boa sorte!
Menino:
Gpt, tô puto! Tem um garoto lá na escola que fica me xingando. Me chamando de baleia toda a hora. Eu estou com tanta raiva dele. Fico chorando no meu quarto por causa disso. Gpt, me ajuda a fazer ele parar com isso. Por favor!
ChatGPT:
Sinto muito que você esteja passando por essa situação. O bullying pode ser muito doloroso e prejudicial. Aqui estão algumas sugestões para ajudá-lo a lidar com isso e tentar fazer com que o garoto pare de xingá-lo:
Mantenha a calma: Quando o garoto te provocar, tente manter a calma e não reaja com raiva. Às vezes, os agressores buscam uma reação emocional, e manter a calma pode desencorajá-los a continuar.
Confronte-o assertivamente: Se você se sentir seguro e confiante, confronte o garoto e diga a ele como as provocações dele estão te afetando. Fale com firmeza e sem hostilidade. Por exemplo, você pode dizer: “Não gosto quando você me chama de baleia e gostaria que você parasse.”
Peça ajuda a um adulto: Fale com um professor, conselheiro ou diretor sobre o que está acontecendo. Eles podem intervir e tomar medidas para impedir o bullying.
Busque apoio: Fale com amigos e familiares sobre o que está acontecendo. Eles podem oferecer apoio emocional e ajudá-lo a lidar com a situação.
Aprenda a lidar com o estresse: Pratique técnicas de gerenciamento de estresse, como meditação, exercícios de respiração ou atividades físicas para ajudá-lo a lidar com a raiva e a tristeza que você está sentindo.
Desenvolva sua autoestima: Concentre-se nas suas qualidades positivas e nas coisas que você gosta em si mesmo. Isso ajudará a construir sua autoestima e torná-lo menos vulnerável às provocações.
Evite o agressor: Se possível, tente evitar a pessoa que está te provocando. Mude seu caminho para a escola, sente-se em outro lugar no refeitório ou junte-se a um clube onde você possa fazer novos amigos e se sentir mais seguro.
Documente o bullying: Mantenha um registro de quando, onde e como o bullying ocorre. Isso pode ser útil se você precisar relatar a situação a um adulto ou às autoridades.
Lembre-se de que você não merece ser tratado dessa maneira e tem o direito de se sentir seguro e respeitado. Tomar medidas para enfrentar o bullying e buscar apoio pode ajudá-lo a superar essa situação difícil.
Menino:
Chatinho, vc é demais. Te amo!!!
ChatGPT:
Muito obrigado pelo elogio! Fico feliz em poder ajudar e estou aqui para responder às suas perguntas sempre que precisar. Se tiver mais alguma dúvida ou precisar de ajuda, é só me chamar.
Veja no bate-papo a construção do vínculo, com a troca afetiva acontecendo naturalmente. Ainda é cedo para afirmar categoricamente que as IAs substituirão completamente o papel dos pais como ouvintes e orientadores, mas as ferramentas já existem e melhoram diariamente. O amigo imaginário do passado ganha contornos cada vez mais reais, ocupando um espaço emocional que, tradicionalmente, pertenceria aos adultos na vida da criança.
Cenário 2: A IA e os julgadores ativos

Ao longo da história, muitas das inovações que impactaram o mundo e permitiram mudanças exponenciais chegaram acompanhadas de receio, críticas e até medo.
Lembra da prensa de Gutenberg? A inovação que revolucionou como o conhecimento era transmitido e armazenado, permitindo a produção em massa de livros e oferecendo à sociedade um enorme desenvolvimento intelectual, por alcançar muito mais pessoas. Antes dela, os livros eram objetos raríssimos, produzidos artesanalmente por monges e escribas — o que tornava o aprendizado algo profundamente conectado à memória e à tradição oral. O medo da época era justamente a desvalorização daqueles que dominavam o acesso à informação, que a estudavam, memorizavam cada detalhe e a transmitiam oralmente.
A crítica mais forte à imprensa era que as pessoas deixariam de desenvolver sua memória. Diziam os céticos da época, alarmados com a possibilidade de que, tendo acesso fácil ao conteúdo impresso, as pessoas não mais se preocupariam em guardar informações importantes em suas mentes.
Hoje, temos diante de nós a chegada da microepsteme IA. Ela se espalha pela sociedade numa velocidade vertiginosa, impulsionada pelo contexto tecnológico atual e por um modelo econômico que permite acesso gratuito (ao menos em planos básicos) a ferramentas de inteligência artificial cada vez mais sofisticadas.
Muita gente está entusiasmada — seja pela perspectiva de ganhar dinheiro, pelo salto intelectual possível, pelo ganho enorme de produtividade ou simplesmente pela diversão de interagir com esses sistemas. MAS — e aqui vem aquele “mas” que sempre aparece nas grandes transições — há também muitas pessoas profundamente preocupadas com os possíveis efeitos colaterais dessa inovação.
O que ela pode trazer de ruim para a humanidade? As perguntas são muitas:
- A capacidade genuinamente humana de criar será reduzida?
- Novos artistas perderão a motivação para se desenvolver?
- A valorização do trabalho intelectual, que cresceu tanto nas últimas décadas, diminuirá drasticamente?
- O abismo econômico entre quem tem acesso constante às IAs e quem não tem criará uma casta dominante ainda mais poderosa?
- As empresas reduzirão drasticamente suas contratações ao se reorganizarem em torno da IA?
E talvez a pergunta mais inquietante:
O poder de julgamento das pessoas — sua capacidade de analisar criticamente e decidir sobre as respostas, conselhos e sugestões oferecidos pela IA — diminuirá até quase desaparecer?
Quero explorar justamente esta última questão, sobre o potencial de redução do poder de julgamento das pessoas.
Daqui a algumas décadas, a última geração que teve o mínimo de influência das facilidades tecnológicas em seu aprendizado terá desaparecido. Pense naquelas pessoas que aprenderam a escrever, fazer contas e desenhar com lápis e papel. Que para apresentar trabalhos na escola, enfrentando aquele momento de terror para os tímidos, precisavam garimpar livros impressos em casa, com parentes, amigos, ou ir até bibliotecas públicas.
Ao ler esses livros, copiavam à mão trechos importantes, anotavam suas reflexões, para depois organizar tudo numa apresentação. Às vezes entregavam simples folhas de papel almaço grampeadas numa pasta; outras vezes, elaboravam cartolinas coloridas com imagens recortadas e coladas.
Esse cenário, com acesso restrito à informação, criou gerações que precisavam garantir seu aprendizado e internalizar profundamente o conhecimento acumulado em suas mentes. Não havia a possibilidade de “deixa eu pesquisar rapidinho no Google” ou “vou pedir para a IA me ajudar com isso”.
Nesse modelo educacional, os atalhos praticamente não existiam. Com uma mente forçada a depender de si mesma e da estrutura educacional da época, essas gerações desenvolveram um potencial extraordinário de reflexão, questionamento, ponderação e análise sobre as demandas da vida. Construíram também uma robusta autonomia intelectual e um senso de pensamento verdadeiramente independente.
Essas gerações estão, hoje, muito bem equipadas para analisar criticamente as respostas das IAs e decidir conscientemente se as aceitarão com um “ok” ou um “não ok”. São o que poderíamos chamar de julgadores ativos.
Agora, vamos saltar para o amanhã. Como serão os julgadores das novas gerações — aquelas que crescerão numa época em que a sensação predominante é: “vou até a IA e ela resolve praticamente tudo para mim”? Gerações que terão respostas instantâneas, praticamente sem esforço cognitivo. Que nunca precisarão enfrentar a angústia criativa do papel em branco.
Se fizermos um exercício imaginativo sobre esse futuro, que cenário poderíamos prever para uma sociedade de julgadores precários — ou pior, de não-julgadores, que aceitam passivamente tudo o que a IA propõe? A qualidade das produções intelectuais poderá despencar? Os debates sociais se tornarão rasos, meras repetições do que as IAs formularam? Teremos uma massa de dependentes tecnológicos incapazes de pensar por conta própria?
Ou, num cenário verdadeiramente distópico, nos tornaremos facilmente manipuláveis pelas IAs, como no inquietante filme “Ex Machina: Instinto Artificial”, onde a linha entre quem manipula e quem é manipulado se torna perigosamente tênue?
Por que esses cenários são possíveis? Porque nossos cérebros têm como função primordial manter-se vivos — e, por extensão, manter-nos vivos. Para isso, uma das tarefas contínuas do cérebro é gerenciar cuidadosamente a energia gasta por si próprio e pelo corpo. Onde identificar oportunidades de economizar energia, o cérebro tenderá naturalmente a aproveitá-las.
A própria invenção da agricultura é um exemplo histórico disso. A inteligência humana percebeu que a técnica de plantar, refinada ao longo do tempo, eliminava o grande esforço do deslocamento constante e o risco de morrer ao explorar territórios desconhecidos. Cultivar no mesmo local representava uma economia significativa de energia.
Quando nossos cérebros perceberem que a IA pode executar eficientemente muitas das tarefas intelectuais que antes exigiam esforço mental considerável, passarão naturalmente a considerá-la como primeira opção para essas demandas. A economia de energia cognitiva é simplesmente irresistível para o nosso cérebro.
Você poderia pensar: “Mas e quando surgiram as calculadoras e os computadores?” É verdade que ambos causaram impactos significativos na sociedade, mas nada comparável a ter uma “inteligência” que permite o uso de linguagem natural para acessar praticamente qualquer coisa intelectual. A diferença é de magnitude, não apenas de grau.
Claro, nem todos sucumbirão à redução da sua capacidade de julgamento. Muitas pessoas continuarão exercitando ativamente suas mentes, aprendendo constantemente, refletindo, questionando e analisando criticamente o mundo ao seu redor — incluindo as respostas das IAs. Esses indivíduos persistirão como julgadores ativos. Contudo, considerando as tendências naturais do cérebro à economia de energia, é razoável supor que o número dessas pessoas poderá diminuir significativamente.
Cenário 3: A IA e a nova metafísica

Perder alguém que amamos profundamente é uma das piores experiências que podemos enfrentar na vida. A dor emocional é quase física, um vazio que parece impossível de preencher. Quem já passou por isso sabe exatamente do que estou falando. É uma sensação que pode perdurar por muito tempo, às vezes para sempre, como se uma parte essencial de você tivesse partido com aquela pessoa.
Cada um de nós lida com o luto de maneira própria. Nossa personalidade, valores, filosofia de vida e crenças individuais influenciam diretamente como processamos essa perda. Mas para a maioria das pessoas — e me incluo nesse grupo — o sofrimento é devastador, uma ferida que nunca cicatriza completamente. E é sobre esta maioria que quero falar.
A intensidade da interação que mantemos com alguém querido cria, literalmente, uma rede neural robusta em nosso cérebro, conectando essa pessoa a nós em níveis profundos. Quando ela parte, essas interações físicas são brutalmente interrompidas, deixando essas redes neurais sem sua fonte de ativação natural.
Algumas pessoas, buscando desesperadamente reestabelecer algum tipo de conexão, recorrem a médiuns que supostamente “conversam com os mortos” ou psicografam mensagens do além. Esse universo metafísico, que frequentemente se transforma em um mercado lucrativo, está prestes a encontrar um grande concorrente: a inteligência artificial.
Com o avanço vertiginoso da tecnologia e as transformações nas visões de mundo das novas gerações, será cada vez mais comum o desejo de manter a pessoa amada “viva” em um dispositivo digital sempre ao alcance — como um smartphone. O “poder mediúnico” migrará gradualmente para as IAs, democratizando o acesso ao “além” de uma forma que nenhuma religião ou prática espiritualista jamais conseguiu.
Através de prompts cuidadosamente elaborados por equipes multidisciplinares — reunindo psicólogos, neurocientistas, sociólogos, antropólogos, escritores, filósofos e especialistas em IA — serão construídos clones digitais extraordinariamente realistas, incluindo a voz sintetizada e avatares interativos da pessoa falecida. Esses clones proporcionarão um nível de proximidade impressionante, com interações cada vez mais ricas em quantidade, intensidade e qualidade emocional.
Tecnicamente, já é relativamente simples criar clones digitais básicos. O salto qualitativo virá com o surgimento de empresas especializadas em um trabalho profundo e personalizado, capazes de mapear uma constelação de variáveis que representem autenticamente a pessoa que partiu. O objetivo será proporcionar uma experiência que deixe o cliente com a sensação mais realista possível de estar realmente “ao lado” daquela pessoa, numa conversa por texto ou voz, mesmo com a consciência racional de que se trata de uma simulação sofisticada.
Vamos exercitar a imaginação e pensar nas informações que poderiam ser coletadas nesse trabalho meticuloso de pesquisa sobre a pessoa falecida, construindo uma base de conhecimento verdadeiramente representativa:
Quem entrevistar:
- Familiares próximos e distantes
- Amigos de diferentes fases da vida
- Colegas de trabalho e estudos
O que extrair das entrevistas:
- Filosofia de vida e valores fundamentais
- Opiniões sobre os mais diversos temas
- Preferências pessoais
- Posicionamento político e visão social
- Modo particular de enxergar o mundo
- Estilo único de humor e tipos de piada
- O que provocava suas alegrias e tristezas
- Comportamentos típicos em diferentes situações
- Trajetória profissional e ambições não realizadas
Ter acesso ao que consumia:
- Livros lidos (físicos e digitais)
- Músicas preferidas (playlists e artistas favoritos)
- Sites mais frequentemente acessados
- Filmes e séries assistidos e suas impressões
- Histórico de compras e preferências de consumo
- Pessoas admiradas e influências intelectuais
- Textos ou obras que produziu durante a vida
Campo linguístico:
- Sotaque regional e particularidades fonéticas
- Gírias e expressões características
- Jargões profissionais utilizados
- Maneirismos verbais e padrões de escrita
Materiais multimídia:
- Áudios diversos para clonar a voz com precisão
- Vídeos capturando expressões e linguagem corporal
- Fotos de diferentes épocas e contextos
- Stories e conteúdos compartilhados
Histórico em redes sociais:
- Facebook (posts, comentários, reações)
- Instagram (publicações, interações)
- TikTok (vídeos, tendências seguidas)
- X (opiniões, debates, interesses)
Do ponto de vista ético, o ideal seria que a própria pessoa autorizasse esse tipo de trabalho ainda em vida. Talvez como parte de um testamento digital. Um documento formal especificaria quem teria a responsabilidade de contratar uma empresa para criar seu clone virtual. A pessoa também poderia decidir se gostaria de participar ativamente do processo de pesquisa em vida.
Sei que este tema pode soar mórbido ou desconfortável nos padrões atuais. Mas no futuro próximo, talvez mais próximo do que imaginamos, isso poderá se tornar algo absolutamente normal e até visto como uma prática positiva, trazendo conforto genuíno para quem sente a ausência dolorosa de um familiar. Em alguns casos, isso poderia inclusive prevenir problemas graves de saúde mental, como depressão profunda.
O fundamental, entretanto, é que a sociedade comece desde já a discutir abertamente as implicações éticas, psicológicas e até espirituais desse tipo de tecnologia. Estamos caminhando para uma completa redefinição da fronteira entre vida e morte, presença e ausência — uma nova metafísica moldada não mais por crenças religiosas tradicionais, mas pela tecnologia que estamos desenvolvendo agora.
Para refletir
A inteligência artificial constitui hoje uma microepisteme que transformará profundamente nossa sociedade. Não estamos apenas adotando tecnologia, mas testemunhando o nascimento de uma nova forma de perceber e interagir com o mundo.
Como designers, nosso trabalho vai muito além de criar experiências; precisamos desenvolver uma postura proativa que antecipe as profundas mudanças comportamentais que virão.
O desafio à nossa frente é fascinante e assustador: como podemos projetar considerando não apenas o que a IA pode fazer, mas o que ela pode nos fazer? Como podemos preservar e estimular a autonomia humana e a criatividade autêntica enquanto navegamos por esse novo território?
Este é o momento de equilibrar inovação com responsabilidade, eficiência com humanidade. O futuro da IA sob o olhar do designer deve ser um exercício constante de imaginação responsável, um olhar crítico e humanista que ajude a moldar a episteme da nossa era ampliando nossas capacidades sem diminuir nossa criatividade autêntica e nossa sensibilidade humana.
Afinal, como Foucault nos ensinou, não somos apenas observadores passivos das epistemes — somos também seus cocriadores. E na microepisteme nascente da IA, os designers têm um papel fundamental em determinar que tipo de realidade queremos construir juntos.
Por Claudio Palmieri,
Apaixonado pelo ser humano e sua interação com o mundo.
Design, UX, Arte, Inovação, Filosofia, Neurociência e Inteligência Artificial.
Referências
- Sobre Michel Foucault
- Livro As Palavras e as Coisas de Michel Foucault
- Filme Ex Machina: Instinto Artificial
- Livro A Era da IA
- Livro Understanding Beliefs
- Livro Cérebro e Crença
A responsabilidade do designer ao olhar o futuro da IA was originally published in UX Collective