A violência extrema nos roubo de celulares

Dados do Fórum de Segurança Pública mostram que São Paulo lidera o ranking dos crimes. Na terça-feira, um arquiteto foi assassinado na capital paulista ao tentar impedir que um aparelho fosse levado — tomou 3 tiros

Abr 3, 2025 - 10:28
 0
A violência extrema nos roubo de celulares

Dois episódios em São Paulo mostram que os roubos de celulares têm sido praticados com extrema violência. O caso mais recente da brutalidade foi o assassinato do arquiteto Jefferson Dias, na terça-feira. Ele interveio em um assalto no Butantã, na Zona Oeste paulista — viu dois homens avançarem contra uma mulher, que perdeu a aliança e o aparelho, e chegou até mesmo a atropelar um dos criminosos. O homem, porém, levantou-se e fez três disparos contra o arquiteto, matando-o instantaneamente. Jefferson será sepultado hoje, no Cemitério Parque dos Ypês, em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo.

Outro crime brutal por causa de um celular foi o assassinato do caso do ciclista Vitor Medrado. Em 13 de fevereiro, ele foi abordado por dois criminosos em frente ao Parque do Povo, no bairro Pinheiros, em São Paulo. O atleta estava parado na calçada, não reagiu ao assalto, mas, ainda assim, levou um tiro mortal no pescoço. Mesmo caído no chão, um dos bandidos levou seu celular.

Os roubos de celulares vêm sendo acompanhados de crimes cada vez mais graves, como homicídio doloso e latrocínio. Alan Fernandes, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), considera que as penas de receptação, que variam de um a quatro anos de reclusão e multa, são baixas. Além disso, ele diz que as polícias têm dificuldades em "demonstrar a má-fé" das pessoas que têm aparelhos obtidos por meio criminoso, o que dificulta a responsabilização penal.

"Ainda que as penas de receptação possam ser ampliadas, medidas penais não são suficientes. A atuação em termos de fiscalização administrativa, em estabelecimentos comerciais, podem produzir efeitos mais positivos, com maior celeridade e menores custos que aumento de penas", observa.

O conselheiro salienta que a demanda constante por smartphones impulsiona o crime. Em resposta, há um esforço conjunto governamental, dos fabricantes e de operadoras, empresas e instituições financeiras para o bloqueio rápido dos aplicativos. Consequentemente, os criminosos passam a exigir que os aparelhos sejam entregues desbloqueados, o que potencializa a hipótese do crime cometido com violência.

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, nada menos que 107 aparelhos roubados ou furtados a cada hora. Os dados mostram que, apesar de o Brasil ter apresentado uma redução de 4,7% nos parâmetros globais para casos de roubo e furtos em relação à 2022, em 2023 o país registrou 937,3 mil aparelhos perdidos devido a esses crimes. Esse número, porém, pode ser maior, pois o levantamento se refere a dois anos atrás.

tabela roubo celular
tabela roubo celular(foto: pacifico)

O relatório aponta que a maior parte dos casos de roubo registrados são entre terças e sextas-feiras, com predominância de horário das 20h às 21h, quando as ruas estão menos movimentadas. Em relação aos furtos, o dia com mais casos é sábados, seguidos por domingos, sextas, terças, quintas e segundas, com mais registros sendo feitos entre 18h e 19h — horário do pico nas ruas e nos transportes públicos.

Para o FBSP, que elabora o Anuário, os roubos e furtos de celulares são "portas de entrada do crime organizado para o mundo virtual e peça-chave no crescimento do medo e da insegurança da população".

São Paulo

O Anuário mostra que São Paulo é responsável por 296 mil crimes, o equivalente a 31,6% (137,9 mil roubos e 158,2 mil furtos) do total nacional. O estado lidera o levantamento e está 33,8% à frente da Bahia, em roubos (é a segunda unidade da Federação na modalidade, com 46,6 mil registros), e 25,7% à frente de Minas Gerais em furtos (o segundo do ranking, com 40,6 mil casos).

Em dezembro de 2023, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) lançou o aplicativo Celular Seguro, no qual os usuários podem se cadastrar e, caso sejam roubados ou furtados, registram uma ocorrência no app, que alerta as operadoras e bancos sobre a perda. Para Fernandes, o aplicativo tem potencial para gerar bons resultados no enfrentamento em parte da cadeia criminosa.

"No entanto, não deve atingir as atividades de venda de peças de celulares, bateria e tela, por exemplo, nem o acesso aos dados dos proprietários dos smartphones. Essas atividades deverão manter-se inalteradas", lamenta.

*Estagiário sob a supervisão de Fabio Grecchi