Paupérrimo

Confesso que sem grande entusiasmo, e ainda menos ânimo, que há demasiado tempo os escuto sem qualquer novidade, sem golpe de asa que os retire da mediania, alguns, e da mediocridade, outros, que lhes traga alguma luz e um pouco de azul, lá os vou ouvindo. Os jornalistas, e aqui refiro-me aos que fazem entrevistas para as televisões aos líderes políticos, ajudam cada vez menos a disfarçar a jactância, desfaçatez, melhor diria o cinismo, e por vezes a impreparação de alguns entrevistados. Quando não raro são eles próprios, entrevistadores, manifestamente fracos, enviesados, cumprindo sabe-se lá que agendas.  A última entrevista que vi foi a da SIC Notícias a Pedro Nuno Santos, conduzida por Nelma Serpa Pinto. Os entrevistados podem não ajudar, mas quando os jornalistas são fraquinhos é difícil dizer qual dos dois conseguiu ser mais previsível, mais entediante, mais monótono, e mais desinteressante durante mais tempo. No extremo oposto temos Clara de Sousa ou Rodrigues dos Santos, que gostam de fazer de entrevistadores e de entrevistados, convencidos como estão de que será uma grande injustiça se acabarem a carreira sem receberem, pelo menos, três ou quatro Pulitzer em diversas categorias. Viver este pesadelo durante mais uns meses – que não terminará em 18 de Maio, entrando pelo Verão, Outono e Inverno –, com um debate político que pede meças aos programas sobre o "chuto-na-bola", com uma miríade de programas de pseudo-comentário e pretensa análise política, protagonizados por comentadores que de tudo sabem e sobre mil e um assuntos falam de cátedra, destilando insolência, é expiação demasiado pesada, embora merecida para todos os milhões que alheando-se de quase tudo durante décadas hoje se queixam, na primeira rede social ao alcance dos seus dedos, dos políticos, dos partidos, do sistema político, do regime, das sondagens, das cançonetas dos festivais, dos árbitros, da extensão das homilias, da corrupção, do centralismo, dos imigrantes, dos assaltos, dos pedófilos, das polícias, dos sindicatos, dos empresários, dos piropos, dos candidatos presidenciais que ainda não são e se fartam de dizer o que um dia farão se alguma vez formalizarem os sonhos e conseguirem a eleição, ou da falta de água, da chuva que cai, dos transportes que não há, são poucos, não andam a horas, vão sempre cheios e nunca chegam; enfim, do calor, do frio, de tudo. Pior só mesmo a perspectiva de ouvir Carlos Moedas em campanha autárquica a falar de jacarandás. Quando ainda estamos a mês e meio das eleições legislativas tudo isto é tão mau, tão pobre, triste e vil que se ficassem quietos e calados até 18 de Maio seria uma mais-valia para todos. A nossa sanidade iria agradecer.

Abr 3, 2025 - 10:34
 0
Paupérrimo

Confesso que sem grande entusiasmo, e ainda menos ânimo, que há demasiado tempo os escuto sem qualquer novidade, sem golpe de asa que os retire da mediania, alguns, e da mediocridade, outros, que lhes traga alguma luz e um pouco de azul, lá os vou ouvindo.

Os jornalistas, e aqui refiro-me aos que fazem entrevistas para as televisões aos líderes políticos, ajudam cada vez menos a disfarçar a jactância, desfaçatez, melhor diria o cinismo, e por vezes a impreparação de alguns entrevistados. Quando não raro são eles próprios, entrevistadores, manifestamente fracos, enviesados, cumprindo sabe-se lá que agendas. 

A última entrevista que vi foi a da SIC Notícias a Pedro Nuno Santos, conduzida por Nelma Serpa Pinto. Os entrevistados podem não ajudar, mas quando os jornalistas são fraquinhos é difícil dizer qual dos dois conseguiu ser mais previsível, mais entediante, mais monótono, e mais desinteressante durante mais tempo. No extremo oposto temos Clara de Sousa ou Rodrigues dos Santos, que gostam de fazer de entrevistadores e de entrevistados, convencidos como estão de que será uma grande injustiça se acabarem a carreira sem receberem, pelo menos, três ou quatro Pulitzer em diversas categorias.

Viver este pesadelo durante mais uns meses – que não terminará em 18 de Maio, entrando pelo Verão, Outono e Inverno –, com um debate político que pede meças aos programas sobre o "chuto-na-bola", com uma miríade de programas de pseudo-comentário e pretensa análise política, protagonizados por comentadores que de tudo sabem e sobre mil e um assuntos falam de cátedra, destilando insolência, é expiação demasiado pesada, embora merecida para todos os milhões que alheando-se de quase tudo durante décadas hoje se queixam, na primeira rede social ao alcance dos seus dedos, dos políticos, dos partidos, do sistema político, do regime, das sondagens, das cançonetas dos festivais, dos árbitros, da extensão das homilias, da corrupção, do centralismo, dos imigrantes, dos assaltos, dos pedófilos, das polícias, dos sindicatos, dos empresários, dos piropos, dos candidatos presidenciais que ainda não são e se fartam de dizer o que um dia farão se alguma vez formalizarem os sonhos e conseguirem a eleição, ou da falta de água, da chuva que cai, dos transportes que não há, são poucos, não andam a horas, vão sempre cheios e nunca chegam; enfim, do calor, do frio, de tudo.

Pior só mesmo a perspectiva de ouvir Carlos Moedas em campanha autárquica a falar de jacarandás.

Quando ainda estamos a mês e meio das eleições legislativas tudo isto é tão mau, tão pobre, triste e vil que se ficassem quietos e calados até 18 de Maio seria uma mais-valia para todos. A nossa sanidade iria agradecer.