‘Ninguém pendura um CDB na parede’: obras de arte ganham força como opção de investimentos — como começar sua coleção
Obras de arte são cada vez mais visadas como forma de diversificação do portfólio de investimentos; leiloeiro que está há 40 anos no mercado dá as principais dicas para começar a investir The post ‘Ninguém pendura um CDB na parede’: obras de arte ganham força como opção de investimentos — como começar sua coleção appeared first on Seu Dinheiro.

Investir em arte não é algo óbvio. Sobretudo em um país como o Brasil, que ainda engatinha na bolsa de valores, e tem um mercado artístico diminuto na comparação mundial.
Mas o crescimento do passion investing — o investimento “de paixão”, que inclui vinhos, carros, relógios e até itens de moda — tem feito com o que as obras de arte sejam cada vez mais visadas pelos investidores que já têm outros ativos no portfólio como uma forma de diversificação.
Comprar um quadro de um artista brasileiro, por mais consagrado que ele seja, não é a primeira opção que vem à cabeça para nenhum dos objetivos financeiros clássicos. Um quadro não mantém o dinheiro rendendo, com liquidez diária, como um título do Tesouro. Tampouco expõe o investidor à possibilidade de multiplicar o patrimônio em poucos meses, como as criptomoedas.
Em contrapartida, o prazer visual de ter um quadro ou uma escultura em casa é incomparável. “Ninguém põe um CDB na parede”, diz Aloisio Cravo, fundador da casa Aloisio Cravo Arte e Leilões.
Para o empresário, que está há 40 anos no ramo dos leilões, investir em arte não é só uma questão de gosto pessoal e de “achar bonito”. O segredo está em encontrar obras que possam ser vistas como verdadeiros ativos e dar uma resposta financeira aos colecionadores-investidores.
“O segmento sempre tem oportunidades. Sempre tem artistas com um potencial de valorização grande”, diz Cravo.
Entre a Bienal e a Faria Lima
Por mais distantes que pareçam, o Pavilhão da Bienal e a Faria Lima têm mais em comum do que as pessoas pensam.
Uma comparação ajuda os colecionadores a entenderem os investidores da bolsa e vice-versa: as obras de artistas consagrados são como a renda fixa, enquanto as de artistas jovens são como a renda variável.
Embora não seja possível fazer um valuation, como os analistas fazem com as empresas listadas em bolsa, o mercado artístico também tem as próprias regras de precificação, que são baseadas sobretudo no momento de carreira do artista.
- Um exemplo: Andy Warhol, o americano underground que ficou conhecido pela pop art e pelos retratos de cores vibrantes, tinha obras vendidas a US$ 10.000 nos anos 1990. Hoje em dia, são vendidas a US$ 200.000.
Conforme os artistas vão ganhando renome e prestígio, tanto dentro quanto fora das galerias, suas obras também se valorizam. A liquidez (facilidade para negociação) costuma ser mais alta nos trabalhos que foram feitos durante o “melhor momento do artista”.
Vale dizer: a definição de melhor momento é um pouco nebulosa e fica mais clara quando o artista já não está mais em atividade.
Daí vem uma outra semelhança com o mercado financeiro: os dealers nas galerias e nas casas de leilões fazem as vezes de assessores de investimento, instruindo os clientes sobre as opções mais vantajosas de arte-ativo.
Uma diferença fundamental, no entanto, é o fato de que, no mercado de arte, não há outra opção que não o longo prazo.
Especular em cima de obras de arte oferece um risco muito grande, que não vale a pena. Para Aloisio Cravo, o prazo ideal para ver se o seu investimento está valorizando, ou não, é de 10 anos.
“O mercado de arte tem uma característica interessante: ele não explode, mas também não implode. Dificilmente você vai ter um patrimônio de 1 bilhão que vira 50 bilhões. A probabilidade disso acontecer é muito pequena. Mas ele também não vai de 1 bilhão para 200 milhões”, explica.
Ao contrário das ações, que podem sofrer variações relevantes de valor em um único dia por conta de declarações de empresários ou de notícias desfavoráveis, não tem informação que possa fazer desabar o preço de uma obra repentinamente, diz o fundador da casa de leilões.
Dessa forma, quem faz uma construção estratégica da “carteira”, vê uma evolução média constante do patrimônio, sem grandes ruídos.
Como começar a investir em arte?
No momento atual de maturidade do mercado brasileiro, a introdução ao investimento em arte se dá principalmente através de amigos e família. O “boca a boca” acaba sendo bem efetivo para acender o interesse dos investidores que querem diversificar o portfólio além do mercado de capitais.
Nesse contexto, contar com especialistas é essencial para ser mais certeiro nos primeiros passos.
“Eu sempre digo que o ideal é a pessoa eleger pelo menos uma ou duas pessoas para conversar, porque é muito difícil você caminhar sozinho. Por mais que a pessoa estude, pesquise, depois de 10 anos, ela não vai conhecer o que um profissional de 40 anos conhece”, diz Cravo.
Para começar, o leiloeiro recomenda um investimento de R$ 10 mil a R$ 50 mil em trabalhos como gravuras e aquarelas.
As obras podem ser adquiridas tanto em galerias, que representam os artistas, quanto nos leilões (hoje em dia, majoritariamente online), que oferecem uma diversidade de peças de colecionadores, de acordo com a curadoria própria da casa.
O processo de se tornar um investidor-colecionador é lento. “Ninguém fala que é colecionador. Um dia, você descobre, lá pela 14ª compra, que você se tornou um colecionador”, brinca Aloisio Cravo.
O Brasil ‘chegou agora’ no mercado de arte
O fato de que muitas pessoas ainda não enxergam o potencial financeiro da arte também tem a ver com o tamanho modesto do setor artístico brasileiro, em comparação com outros países.
O Brasil representa apenas 0,89% do total do mercado de arte global em termos financeiros, segundo a pesquisa divulgada em fevereiro pela Associação Brasileira de Arte Contemporânea (Abact) com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).
- Em 2023, o mercado de arte no Brasil movimentou aproximadamente R$ 2,9 bilhões, um crescimento de 21% em relação ao ano anterior. O resultado ainda foi 1,5% abaixo do valor pré-pandêmico de 2019.
Os gigantes do segmento são os Estados Unidos, a Inglaterra e a China.
As cidades de Londres e Nova York, em especial, são os principais hubs mundiais para a comercialização da arte. Foi na capital inglesa, inclusive, que foram fundadas as duas casas de leilão mais importantes do mundo: a Sotheby’s e a Christie's.
Tais instituições foram fundadas em meados dos anos 1700, ao passo que o Brasil começou a “levar a sério” esse mercado apenas na década de 1960. “Nós chegamos agora”, diz Aloisio Cravo.
Na visão de Cravo, o segmento ainda carece de uma internacionalização, já que a circulação de obras ainda está muito restrita ao Brasil. Por um lado, esse movimento é positivo, pois os artistas conseguem alcançar sucesso no próprio país. Por outro, isso impede que as obras ganhem prestígio internacional — e possam valorizar ainda mais.
“O potencial de crescimento das obras brasileiras é uma coisa descomunal. Na hora que estivermos arranhando o mercado internacional, nós vamos começar a disputar bilhões de dólares, aos quais não estamos expostos hoje em dia”, diz.
O processo de internacionalização está sendo levado a cabo de pouco em pouco.
O leiloeiro cita como um marco importante a participação das galerias nas feiras internacionais. Uma delas é a Art Basel, que teve 20 galerias brasileiras na última edição e Miami, no final do ano passado.
A exposição de artistas brasileiros em museus estrangeiros também é um feito notável, que ajuda na expansão internacional.
A “invasão brasileira” nos museus Guggenheim, em Bilbao e em Nova York, através das obras de Tarsila do Amaral e Beatriz Milhazes, é um case de sucesso recente.
Entre IA e bananas… o futuro do mercado de arte
Aloisio Cravo comenta que o panorama para o investimento em arte hoje em dia é muito diferente do que quando ele começou a atuar no setor, há 40 anos. Graças à democratização da informação, impulsionada pela internet, as pessoas estão mais conscientes do potencial de valorização das obras.
Se, em 1995, a notícia da compra do “Abaporu” de Tarsila pelo colecionador argentino Eduardo Constantini foi uma nota de rodapé no jornal, hoje, as cifras bilionárias que o mercado movimenta constantemente furam bolhas além das casas de leilões.
Foi o caso da banana leiloada por US$ 6,2 milhões na Sotheby’s, em novembro do ano passado.
“Só o tempo vai dizer se isso foi uma aberração. Em princípio, eu acho que sim”, diz Cravo.
O leiloeiro relembra a febre dos NFTs em 2021, que também movimentaram muito dinheiro. “A primeira NFT saiu por 90 milhões de dólares e hoje vale quanto? Vale nada”, afirma.
A polêmica mais recente envolvendo o mercado de arte foi o leilão da Christie’s de obras feitas com inteligência artificial (IA), que recebeu escrutínio público de vários artistas e membros do setor.
O valor arrematado foi maior do que as projeções, provando que, por bem ou por mal, a IA invadiu até mesmo o mundo da arte de “alto calibre”.
Intitulado “Augmented Intelligence”, o leilão online entrou no ar no dia 20 de fevereiro e tinha perspectivas de arrecadar cerca de US$ 600 mil, sem contar as taxas. No entanto, a Christie’s divulgou que as 34 obras de arte somaram cerca de US$ 729 mil.
Para o dono da Aloisio Cravo Arte e Leilões, as artes feitas por IA são um “absurdo”, pois esbarram em uma questão de “direito autoral insuperável”.
“Para a IA fazer uma obra de arte, você vai ter que alimentá-la com milhares de imagens de obras de arte. Como fica o direito autoral desses milhares de artistas? Não tem consistência. Na minha percepção, o projeto não se sustenta”, opina.
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