Uma vida dedicada aos estudos
O café já esfriou, os livros estão empilhados na mesa como se esperassem por mim há dias, e a janela embaçada reflete o que sinto por dentro: uma névoa leve de saudade de algo que talvez eu nunca tenha vivido por completo. Entre uma respiração e outra, a pergunta volta — mansa, mas insistente: como


O café já esfriou, os livros estão empilhados na mesa como se esperassem por mim há dias, e a janela embaçada reflete o que sinto por dentro: uma névoa leve de saudade de algo que talvez eu nunca tenha vivido por completo. Entre uma respiração e outra, a pergunta volta — mansa, mas insistente: como seria uma vida dedicada aos estudos? Não como obrigação, nem como escada para o sucesso, mas como escolha, como abrigo, como modo de estar no mundo. Há uma melancolia silenciosa em desejar isso com tanta força — em querer, nesse tempo que exige pressa e performance, apenas o direito de ler devagar, pensar com profundidade e aprender como quem cultiva um jardim. Às vezes me pego imaginando uma vida em que o estudo não seja um meio, mas um fim. E só de imaginar, alguma coisa dentro de mim se aquieta. Essa reflexão começou muitos anos atrás, quando me perguntaram “o que você mais gosta de fazer?”. Eu sempre respondi sobre algum assunto de interesse, mas hoje respondo com clareza: eu gosto de estudar.
E estudar, para mim, nunca foi só acumular conhecimento. Nunca se tratou de decorar datas, nem de riscar tópicos de uma lista. Estudar, quando vivido com o coração inteiro, é uma forma de se relacionar com o mundo — e com aquilo que nele pulsa, escapa e se revela aos poucos. É escuta. Escutar o que está por trás das palavras, escutar o que o silêncio de um texto antigo ainda tem a dizer. É observação. Olhar demoradamente para uma ideia até que ela mostre sua espinha dorsal, até que ela se torne familiar. É espanto. O tipo de surpresa que não se dissolve com o tempo, mas que transforma a forma como vemos tudo ao redor. E, acima de tudo, é uma devoção silenciosa — não religiosa, mas definitivamente espiritual e existencial — à beleza de aprender sem pressa, sem urgência de aplicar, apenas para compreender um pouco mais da vida. Estudar é, no fundo, um gesto de pertencimento. Como quem diz: “quero entender para poder habitar o mundo com mais ternura, mais verdade, mais presença.”
Há uma solidão que não pesa — ela aquece. É a solidão necessária para mergulhar fundo, para pensar devagar, para escutar o que só se revela no silêncio. Quando eu estudo, não estou sozinha, embora o quarto esteja em silêncio e o mundo lá fora siga girando sem mim. Os livros me acompanham como velhos amigos: não exigem resposta imediata, não julgam minhas pausas, apenas permanecem ali, abertos, oferecendo abrigo. Há algo de íntimo e quase sagrado nesse gesto: abrir uma página, apoiar o corpo com delicadeza na poltrona preferida, sentir o cheiro do papel antigo ou da tinta recém-impressa. É um ritual silencioso, onde o tempo se curva e a presença se intensifica. Como escreveu Emily Dickinson, “não há fragata como um livro para nos levar a terras distantes.” E, de fato, cada leitura me leva para mais perto de mim — e mais longe do ruído. Alguns chamam de isolamento. Eu chamo de conversas com os mortos brilhantes que me deixaram palavras.
Vivemos em um tempo que exige velocidade — respostas rápidas, aprendizado acelerado, resultados imediatos. Estudar, nesse contexto, parece um luxo quase que inútil. A leitura profunda é substituída por resumos, a reflexão por comentários apressados, os vídeos são vistos na velocidade 2x, e o conhecimento vira só mais um produto na prateleira do consumo digital. Tudo precisa ser útil, tudo precisa gerar retorno. E, no meio disso, quem decide parar para ler devagar, escrever com intenção ou revisar as próprias ideias com delicadeza parece estar sempre fora do compasso. Eu escolhi não correr. Escolhi o tempo da demora, o tempo de pensar antes de responder, de sublinhar um trecho e voltar a ele dias depois, de reler a mesma página quantas vezes for preciso. E, por isso, escuto com frequência a pergunta melancólica, quase acusatória: “Mas você estuda para quê?” Como se o estudo só fosse válido se rendesse lucro, diploma ou status. Mas eu estudo porque é assim que eu respiro. Porque é assim que eu entendo o mundo. Porque é assim que, mesmo lentamente, eu sigo viva.
Nunca foi sobre saber tudo. Nunca foi sobre dominar todos os temas, terminar todos os livros, ter resposta para todas as perguntas. “Lacrar” nas conversas. A produtividade intelectual, do jeito que nos ensinam, é performance: números de páginas lidas, metas de conteúdo, quantidade de certificados, número de artigos publicados e divulgados no Lattes. Mas o estudo que me sustenta é outro. É mais lento, mais imperfeito, mais verdadeiro. Ele não exige provas, nem apresentações — ele pede presença. Pede curiosidade serena, aquela que não invade, mas se aproxima. Que não busca controlar, mas compreender.
Aprendi a fazer da dúvida um lugar onde posso morar. A conviver com perguntas que talvez nunca se resolvam, mas que me mantêm em movimento. Porque há beleza no inacabado, há sentido no que se constrói aos poucos, como quem costura ideias com delicadeza. O estudo, para mim, é prática existencial. Não serve a um currículo, serve à alma. E talvez por isso seja tão difícil explicá-lo — porque ele não cabe em planilhas, mas transborda em silêncio, em olhar, em gesto. Não estudo para saber. Estudo para viver melhor com o que ainda não sei.
Volto à pergunta que me acompanhou desde o início: como seria uma vida dedicada aos estudos?
Hoje, não tenho uma resposta exata — e talvez nunca tenha. Mas algo em mim aprendeu a aceitar isso com ternura. Aprendi que essa vida não é solitária como imaginava. É, na verdade, uma vida povoada: por ideias que me visitam no silêncio, por autores que me acompanham como velhos amigos, por perguntas que me mantêm desperta. Estudar, aos poucos, deixou de ser esforço e virou gesto. Gesto de quem escolhe olhar mais fundo, escutar mais devagar, permanecer um pouco mais com o que incomoda e o que encanta. No momento eu me posiciono nessa busca de encontrar trabalhos e carreiras em que o estudo não é apenas desejado mas parte deles.
Nem todos os dias são férteis. Às vezes, só consigo abrir o caderno e deixar ele ali, ao lado da xícara de chá, como quem diz: “tudo bem, hoje não.” Mas em outros dias, uma frase sublinhada me devolve o fôlego, uma ideia esquecida no meio de uma caminhada se acende como faísca. E sigo. Não sei tudo. Mas sigo abrindo páginas, perguntando com o coração, e habitando devagar esse caminho que escolhi — com cansaço, com amor, com fé no que ainda não entendi.
Em 2019, fui ao show do Nando Reis e ele me falou uma frase que me marcou profundamente. Ele disse: “Eu não sou bom com pontos finais. Sou bom em abrir parágrafos…” Isso é tão maravilhoso e reflete tanto a curiosidade e o “não saber” o que vem por aí. Considero a leitura de um livro a mesma coisa. E viver assim todos os dias torna a vida muito, muito mais legal.