As extravagâncias sem fim da CBF

Na Copa do Mundo do Catar, em 2022, enquanto a Seleção Brasileira afundava, um grupo de 49 brasileiros fazia a festa, usufruindo de mordomias. Nenhum deles tinha relação com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), mas se hospedaram em hotel cinco estrelas pago pela entidade. Alguns voaram para Doha de primeira classe e pelo menos um deles ganhou cartão corporativo para gastar livremente até 500 dólares por dia (2,5 mil reais), tudo às custas da confederação. O presidente da CBF, o baiano Ednal­do Rodrigues, de 71 anos, colocou ainda na conta da entidade durante a Copa do Catar as despesas de sua mulher, da filha, da cunhada, do gen­ro e dos dois netos. Todos voaram de primeira classe e se hospedaram no Marriot Marquis City. Rodrigues também não se esqueceu dos amigos da política, do Judiciário, da imprensa e das artes. A CBF pagou hospedagem, voo – em classe executiva – e ingressos para congressistas, como o deputado federal José Alves Rocha (União Brasil-BA), que viajou com a mulher, e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que foi acompanhado da namorada. The post As extravagâncias sem fim da CBF first appeared on revista piauí.

Abr 4, 2025 - 20:46
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As extravagâncias sem fim da CBF

Na Copa do Mundo do Catar, em 2022, enquanto a Seleção Brasileira afundava, um grupo de 49 brasileiros fazia a festa, usufruindo de mordomias. Nenhum deles tinha relação com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), mas se hospedaram em hotel cinco estrelas pago pela entidade. Alguns voaram para Doha de primeira classe e pelo menos um deles ganhou cartão corporativo para gastar livremente até 500 dólares por dia (2,5 mil reais), tudo às custas da confederação.

O presidente da CBF, o baiano Ednal­do Rodrigues, de 71 anos, colocou ainda na conta da entidade durante a Copa do Catar as despesas de sua mulher, da filha, da cunhada, do gen­ro e dos dois netos. Todos voaram de primeira classe e se hospedaram no Marriot Marquis City. Rodrigues também não se esqueceu dos amigos da política, do Judiciário, da imprensa e das artes. A CBF pagou hospedagem, voo – em classe executiva – e ingressos para congressistas, como o deputado federal José Alves Rocha (União Brasil-BA), que viajou com a mulher, e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que foi acompanhado da namorada.

Rodrigues assumiu o cargo de presidente da CBF prometendo “expurgar toda e qualquer imoralidade” da confederação. Mas não é bem isso que está acontecendo. Embora ganhe cerca de 1 milhão de reais por mês, ele morou por nove meses no hotel Grand Hyatt, na Barra da Tijuca, ao assumir a entidade na condição de interi­no, em agosto de 2021. Tudo às custas da CBF. Quando virou titular, mudou-se para um condo­mínio no mesmo bairro, mas passava temporadas com a família no hotel, também com despesas pagas pela entidade. Há outros exemplos do uso pessoal do di­nheiro da CBF e também do que foi aplicado em grandes e pequenos favores.

 

Os cartolas das federações estaduais, em vez de fiscalizar, também aproveitam a generosidade de Rodrigues. Até 2021, ca­da presidente de federação ganhava 50 mil reais por mês. Quando assumiu a CBF, Rodrigues deu belos reajustes nos contracheques da cartolagem, tanto que, hoje, um presidente de federação ganha 215 mil reais, com direito a décimo sexto salário.

Em 2023, último ano de balanço disponível, a receita líquida da CBF passou de 1 bilhão de reais. E vai aumentar substancialmente em 2027, quando entrará em vigor o novo contrato de patrocínio da Nike, de 100 milhões de dólares fixos por ano. Outra grande fonte de renda vem dos direitos de transmissão dos jogos. Sem vigilância constante dos órgãos públi­cos nem de investidores privados, e com uma montanha de dinheiro em caixa, a CBF tem sido um alvo cobiçado por interessados e interesseiros.

Rodrigues é formado em ciências contábeis. Mas uma ex-funcio­nária conta que se deparou com uma baderna administrativa quando foi trabalhar lá: contratos espa­lhados pelas gavetas de várias diretorias e ordens de pagamento sem registros formais. “Fiquei com a impressão de que a desorganização era proposital”, diz ela a Allan de Abreu na edição deste mês da piauí. Outro dado da desordem: apesar da receita bilionária, a confederação responde a 43 protestos em cartório por dívidas, que somam 2,6 milhões de reais.

 

Apesar de bilionária, a CBF cortou verba para treinamento da arbitragem no ano passado. O treinamento dos árbitros vem sendo feito apenas por videoconferên­cia. “É como se um clube contratasse um técnico europeu que ficasse treinando os jogadores lá da Europa. Não tem cabi­mento”, diz um árbitro. O re­sultado foi catastrófico. No campeonato do ano passado, 110 árbitros foram afastados por falhas técnicas. No ano anterior, foram quarenta.

Enquanto isso, ganharam postos na CBF pelo menos seis nomes vinculados ou indicados pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvol­vimento e Pesquisa (IDP), com o qual a confederação mantém relação direta desde agosto de 2023. O diretor-geral do IDP é Francisco Schertel Mendes, filho do ministro do STF Gilmar Mendes, fundador e sócio do instituto.

É uma parceria que vai de vento em popa. No dia 7 de de­zembro de 2023, o Tribunal de Justiça do Rio havia destituído Rodrigues do cargo por considerar que sua eleição havia sido irregular. Mais uma vez, o dirigente tomou suas provi­dências: recorreu aos tribunais superio­res em Brasília e pagou 6,5 milhões de reais dos cofres da CBF para seu braço direito, o advogado Pedro Trengrouse, embora esse não constasse mais como advogado da entidade.

 

Duas semanas depois de receber a bolada, Trengrouse desembar­cou em Brasília para ajudar Rodrigues a voltar para o cargo, agora valendo-se de uma nova ação interposta no Supremo por iniciativa do PCdoB, partido do secre­tário-geral da CBF, Alcino Reis Rocha. O julgamento do recurso do PCdoB caiu nas mãos do ministro Gil­mar Mendes. Foi uma dádiva.

Assinantes da revista podem ler a íntegra da reportagem neste link.

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