Tarifas alfandegárias: uma má política da (extrema) Direita

Os efeitos na economia norte-americana, por puro preconceito ideológico nacionalista, serão devastadores: subida da inflação, contração económica, desemprego… Mas terá também um impacto na economia portuguesa, por esta ser uma economia aberta.

Abr 4, 2025 - 00:55
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Tarifas alfandegárias: uma má política da (extrema) Direita

O liberalismo clássico e o neoliberalismo sempre se destacaram no debate da teoria económica pela defesa acérrima dos mercados e pelo afastamento da intervenção do Estado. No limite o Estado teria apenas de intervir para garantir a propriedade privada e a existência dos próprios mercados.

Da mão invisível de Adam Smith à defesa radical de Hayek de uma economia livre da intervenção do Estado, esta foi a teoria dominante em grande parte do período de economia capitalista e coloca tradicionalmente em oposição a visão económica da Esquerda e da Direita, normalmente reduzida a uma maior ou menor defesa da intervenção do Estado na economia.

A família política da Direita tende a demonizar o papel do Estado na economia – a este propósito, entre nós, o radicalismo da Iniciativa Liberal é muito evidente neste domínio. Mas também o PSD se procura demarcar do PS no campo da economia, acusando o PS – e em particular a atual direção – de excessiva intervenção do Estado na economia.

Acontece, porém, que a realidade histórica do capitalismo não é compatível com a ideia de não intervenção do Estado. A verdade é que a intervenção do Estado na economia aconteceu em todos os períodos históricos e nunca os mercados nasceram de geração espontânea.

A Revolução Industrial inglesa e o florescer da economia americana não dispensaram uma forte intervenção protecionista do Estado. É por isso falsa a ideia de que a Esquerda tem no intervencionismo uma oposição da Direita.

A verdade é que nos debates modernos, a Direita portuguesa coloca-se de fora do contexto europeu de definição de uma política industrial eficiente que contribua para a transformação estrutural da nossa economia, assente na inovação e no conhecimento, fatores distintivos da competitividade de mercados onde o fator diferenciação se impõe ao fator preço.

O que a (extrema) Direita faz hoje nos Estados Unidos da América, com a introdução agressiva de tarifas comerciais, corresponde à maior e mais nefasta intervenção que o Estado pode fazer na economia. Os efeitos na economia norte-americana – por puro preconceito ideológico nacionalista – serão devastadores: subida da inflação, contração económica, desemprego…

Mas terá também um impacto na economia portuguesa (as estimativas apontam para uma contração do produto que pode chegar a 1pp), que, por ser uma economia aberta, terá não apenas o impacto direto pela relação direta com a economia norte-americana, mas também pela relação comercial com outros países europeus com exposição à economia americana. Aqui, temos uma má intervenção do Estado na economia. E é uma intervenção da (extrema) Direita.