Morte súbita no atleta: porquê?

Opinião de Hélder Dores, médico cardiologista e autor do livro “Exercício Físico e Coração”.

Abr 1, 2025 - 12:22
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Morte súbita no atleta: porquê?

Por Hélder Dores, médico cardiologista e autor do livro “Exercício Físico e Coração”

A morte súbita no atleta é um evento catastrófico e muito mediatizado. Apesar de existirem muitos dados ainda controversos, são conhecidas as características mais comuns nos atletas vítimas de morte súbita. Como exemplo, a morte súbita aumenta com a idade, é superior no homem do que na mulher, nos atletas de raça negra e naqueles envolvidos em modalidades como o basquetebol e futebol americano nos Estados Unidos da América e o futebol na Europa. Destaca-se ainda que a grande maioria dos casos ocorre durante ou imediatamente após a prática de exercício.

As principais causas de morte súbita no atleta são doenças cardiovasculares, responsáveis por mais de 80% dos casos, mas diferindo com a idade. Nos atletas jovens as principais causas são doenças cardíacas hereditárias, nomeadamente miocardiopatias, que afetam o músculo cardíaco, e doenças arrítmicas primárias, que afetam o ritmo cardíaco. Entre estas salientam-se a miocardiopatia hipertrófica, miocardiopatia arritmogénica do ventrículo direito, miocardiopatia dilatada, síndrome de QT longo e síndrome de Brugada. As doenças arrítmicas têm assumido preponderância pela descrição de muitos casos em atletas com corações estruturalmente normais após a autópsia. Este facto realça a importância da história e a avaliação familiar. Outra causa relevante de morte súbita é a miocardite aguda.

Nos atletas veteranos, com idade superior a 35 anos, a doença coronária aterosclerótica é responsável pela grande maioria dos casos de morte súbita.

Salienta-se ainda o papel de vários fatores extrínsecos como causa de morte súbita em atletas, como o doping e condições ambientais extremas, destacando-se as temperaturas elevadas pelo risco de golpe de calor. Relativamente ao doping, as substâncias mais usadas e associadas a complicações cardiovasculares são os esteróides androgénicos anabolizantes, que podem originar hipertensão arterial, elevação do colesterol, aterosclerose com risco de enfarte agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca e morte súbita.

Apesar da morte súbita no atleta ser um evento raro, é possível reduzir o seu impacto e evitar alguns casos. O risco nunca será zero, mas pode ser reduzido pela identificação precoce dos atletas com risco mais elevado através da avaliação pré-competitiva e pela resposta de emergência nos recintos desportivos.

Relativamente à avaliação do atleta, como as causas de morte súbita diferem com a idade, para além da avaliação física e da história pessoal e familiar, há alguns exames complementares de diagnóstico que estão recomendados. O eletrocardiograma é essencial no jovem, enquanto no veterano a estratificação de risco cardiovascular e exames como a prova de esforço são muito importantes.

A emergência médica, sobretudo pela presença de desfibrilhador e de pessoal com formação para iniciar manobras de reanimação nos recintos desportivas, tem sido a principal razão para a redução de casos de morte súbita e melhoria do prognóstico após uma paragem cardiorrespiratória.

A morte súbita no atleta é uma realidade, mas com a adoção de medidas adequadas — algumas das quais detalhadas no meu livro — é possível reduzir o seu impacto e salvar mais vidas!