Abrandamento económico e preços mais altos. Consumidores serão os perdedores da guerra comercial

O novo capítulo da guerra comercial levada a cabo pelo presidente norte-americano, Donald Trump, deverá traduzir-se numa desaceleração do crescimento económico e os consumidores serão os grandes perdedores, alertam diversos economistas. “No pior cenário, onde não há substituição para produtos feitos nos EUA e há 100% de repasse das tarifas para os consumidores, estimamos que […]

Abr 3, 2025 - 19:19
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Abrandamento económico e preços mais altos. Consumidores serão os perdedores da guerra comercial

O novo capítulo da guerra comercial levada a cabo pelo presidente norte-americano, Donald Trump, deverá traduzir-se numa desaceleração do crescimento económico e os consumidores serão os grandes perdedores, alertam diversos economistas.

No pior cenário, onde não há substituição para produtos feitos nos EUA e há 100% de repasse das tarifas para os consumidores, estimamos que os níveis de preços dos EUA irão aumentar 3,3%“, estima James Knightley, economista do ING, numa nota de research.

Donald Trump anunciou na quarta-feira taxas aduaneiras mínimas adicionais de 10% sobre todas as importações a partir de 5 de abril e sobretaxas para países que considera particularmente hostis ao comércio, como por exemplo a União Europeia (20%) e a China (34%), a partir de 9 de abril.

De acordo com cálculos do ING, a despesa dos consumidores ascendeu a 19,83 biliões de dólares no ano passado, pelo que se os 600 mil milhões de dólares que estima em tarifas forem repassados ​​integralmente, essa despesa subiria 3,3%. Na prática, equivaleria a 1.800 dólares (após impostos) por cada americano, ou 7.200 dólares para uma família de quatro pessoas.

A subida dos preços também é assinalada pelos economistas do Commerzbank numa nota de research. “As tarifas massivas provavelmente levarão a preços mais elevados para o consumidor e desacelerarão a economia dos EUA”, referem, apontando que as importações de bens para os EUA correspondem a cerca de 11% do Produto Interno Bruto (PIB), sendo provável que se tornem mais caras em uma média de quase 20%.

Porém, “a política económica errática” de Trump “está a destruir a base do planeamento e a fazer com que empresas e consumidores se contenham”. Além disso, os aumentos de preços reduzem o rendimento disponível dos consumidores, o que desacelera o consumo. “E as empresas também sofrem com o aumento do custo dos produtos primários. A retaliação de parceiros comerciais também pode causar o colapso dos mercados estrangeiros”, apontam.

Também a agência de notação financeira DBRS considera que as tarifas anunciadas na quarta-feira combinadas com tarifas anunciadas anteriormente, levarão a um crescimento mais lento e maior inflação nos EUA. “A incerteza contínua da política comercial atuará como um obstáculo ao investimento e prejudicará as perspetivas de crescimento de curto prazo“, refere.

O plano tarifário, se implementado, deve desacelerar o crescimento económico, aumentar os preços para consumidores e empresas e diminuir a riqueza das famílias“, diz Michael Heydt, analista da DBRS. “Além disso, muitas empresas provavelmente continuarão hesitantes em comprometer-se com grandes investimentos no curto prazo, pois o anúncio das tarifas dificilmente acabará com a incerteza política“, acrescenta.

Também a Fitch prevê que o impacto das tarifas deverá traduzir-se em recessão para muitos países. “Isto muda as regras do jogo, não apenas para a economia dos EUA, mas para a economia global. Muitos países provavelmente acabarão em recessão“, assinalou.

George Brown, economista da Schroders, estima que a decisão de Trump leva as taxas alfandegárias efetivas dos EUA a subir mais de 17,6 pontos percentuais, para 25,3%. “Antes de contabilizar qualquer retaliação, concluímos que isso poderia aumentar a inflação dos EUA em cerca de 2% e atingir o crescimento em cerca de 0,9%. Vários países indicaram que irão retaliar com contramedidas, então o risco de tarifas ainda maiores continua”, alerta.