A cultura do documentário no Brasil

Nesta quarta-feira, 2 de abril, será realizada em São Paulo a sessão de abertura, para convidados, do 30º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários. Ritas, de Oswaldo Santana, será exibido, tendo sido anunciado que inclui “material inédito, entrevista exclusiva com a cantora [Rita Lee], arquivos pessoais e gravações feitas por ela no celular”. O Festival terá lugar, de 3 a 13 de abril, com ingressos gratuitos, em quatro salas da capital paulista e três cinemas do Rio de Janeiro, onde o filme de abertura, em sessão para convidados na quinta-feira (3), será Viva Marília, dirigido por Zelito Viana, homenageando Marília Pêra – antologia minuciosa da carreira da grande atriz, conduzida em primeira pessoa por ela mesma. Seu sorriso cativante e a força de sua personalidade se impõem do início ao fim. The post A cultura do documentário no Brasil first appeared on revista piauí.

Abr 2, 2025 - 17:11
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A cultura do documentário no Brasil

Nesta quarta-feira, 2 de abril, será realizada em São Paulo a sessão de abertura, para convidados, do 30º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários. Ritas, de Oswaldo Santana, será exibido, tendo sido anunciado que inclui “material inédito, entrevista exclusiva com a cantora [Rita Lee], arquivos pessoais e gravações feitas por ela no celular”.

O Festival terá lugar, de 3 a 13 de abril, com ingressos gratuitos, em quatro salas da capital paulista e três cinemas do Rio de Janeiro, onde o filme de abertura, em sessão para convidados na quinta-feira (3), será Viva Marília, dirigido por Zelito Viana, homenageando Marília Pêra – antologia minuciosa da carreira da grande atriz, conduzida em primeira pessoa por ela mesma. Seu sorriso cativante e a força de sua personalidade se impõem do início ao fim.

No trigésimo aniversário do evento, o É Tudo Verdade pode se orgulhar de ter influído de modo decisivo, a partir de 1996, na formação da cultura do cinema documentário no Brasil. Isso embora ainda falte equacionar, em âmbito nacional, meios adequados para filmes do gênero terem a oportunidade de serem vistos de modo mais amplo – tarefa para a qual o É Tudo Verdade e outros festivais contribuem, mas que não está ao alcance deles resolver por completo.

 

“É difícil ser um bom documentarista sem conhecer os filmes que formaram a grande tradição do documentário. Até uns dez anos atrás era quase impossível ter acesso a esses filmes. Aí chegou o Amir: Deixamos de ser analfabetos principalmente por causa dele”, escreveu João Moreira Salles,* em 2005, na quarta capa de É Tudo Verdade – Reflexões sobre a cultura do documentário. Amir, no caso, é Amir Labaki, fundador e diretor do festival, que, na introdução desse mesmo livro, escreveu:

A História, que foi anunciada finda com a queda do império soviético a partir de 1989, como que se reacelerou naquele fatídico 11 de setembro de 2001 [dia dos atentados terroristas contra as Torres Gêmeas, em Nova York, e o Pentágono, em Washington]. Um novo mundo, mais instável, hostil e inseguro, revelou-se a todos.

Reinterpretá-lo tornou-se como nunca essencial. A mídia globalizada não oferece respostas com a densidade exigida. Pior: a câmera jornalística foi como que sequestrada pela Era do Terrorismo… Neste embate pelo novo front do olhar, o documentário, a um só tempo escudo crítico e pausa iluminista, viu-se eleito gênero de primeira necessidade…

 

 

É claro que o Festival foi muito além, nos últimos trinta anos, de transmitir informações sobre a história do documentário, tendo dado, inclusive, a cada novo evento, oportunidade de acesso a uma amostra selecionada da produção contemporânea brasileira e estrangeira. Além disso, promoveu palestras na Conferência Internacional do Documentário, realizou entrevistas, organizou retrospectivas etc. Enfim, teve atividade múltipla, abrangente, de fato formadora, que procurou, nas mostras itinerantes, ir além do circuito São Paulo-Rio. A formação de uma cultura do documentário no país pode não ter sido mérito exclusivo do É Tudo Verdade, mas não resta dúvida de que a contribuição do Festival do Amir foi fundamental.

O É Tudo Verdade deste ano oferece 85 filmes de trinta países. Inclui retrospectivas de Vladimir Carvalho e Humphrey Jennings, além do Programa Especial 30!, que exibirá, entre outros filmes, Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho. As carreiras de Coutinho e Carvalho serviram de inspiração para Amir criar o É Tudo Verdade, conforme ele revelou na entrevista coletiva ao apresentar a programação deste ano.

Carvalho, falecido em outubro do ano passado, foi o único cineasta brasileiro de sua geração que se dedicou com exclusividade ao documentário, sem se deixar seduzir pelo canto da ficção. Jennings, por sua vez, é um cineasta menos conhecido entre nós, hoje em dia. No entanto, na enquete feita pela revista Sight and Sound, em 1992, na qual cerca de 230 diretores e críticos de todo o mundo indicaram os dez melhores filmes da história centenária do cinema, o número de votos dados a Listen to Britain (1942) e A Diary for Timothy (1945/6), ambos curtas-metragens de Jennings, “foi considerado surpreendente”, segundo Kevin Jackson em The Humphrey Jennings Film Reader, de 1993. “Até mesmo alguns dos detratores mais ferozes de Jennings (ele sempre teve tanto inimigos quanto fãs) reconheceram”, escreveu Jackson, “a beleza excepcional das imagens que ele conseguiu com seus vários cinegrafistas. E a orquestração dessas imagens, em especial quando ele estava trabalhando com seu talentoso editor, Stewart McAllister, é ao mesmo tempo excepcionalmente graciosa e forte.”

 

Entre outras preciosidades, a mostra Clássicos É Tudo Verdade inclui Os Ruminantes, de Tarsila Araújo e Marcelo Cordeiro de Mello, história da tentativa feita por Luiz Sérgio Person e Jean-Claude Bernardet, em 1967, de adaptar o romance de José J. Veiga, publicado no ano anterior. Conforme Bernardet diz no final do documentário, “depois dos Naves [O Caso dos Irmãos Naves] ter apresentado uma violência física muito forte, [a ideia era] apresentar uma coerção, não sobre o corpo diretamente, mas uma coerção por pressão psicológica etc.”. Não terem conseguido fazer o filme “foi um baque”, diz Bernardet. “Isso, realmente foi um baque. Com certeza, em toda minha carreira, eu tive fracassos, como todo mundo tem fracassos. Mas esse, com certeza, é o maior dos fracassos.” O documentário de Araújo e Mello nos confronta com as difíceis condições em que, muitas vezes, tentamos fazer cinema no Brasil.

 

Creio ter participado pela primeira vez do É Tudo Verdade em 2003, ano no qual foi exibida uma retrospectiva de doze documentários e um filme de ficção – Ato de Violência (1980) – que eu havia dirigido até então. De lá para cá, participei mais de uma vez da Conferência Internacional do Documentário e a maioria dos filmes que realizei foi sendo lançada no Festival, dois na abertura e outros na mostra competitiva ou hors-concours.

Este ano, participo dividindo com Laís Lifschitz e João Moreira Salles o crédito de montagem de Minha Terra Estrangeira, a ser exibido hors-concours na mostra Programas Especiais, no dia 5, em São Paulo, e no Rio de Janeiro, no dia 6. Com direção do Coletivo Lakapoy, de Rondônia, formado por cineastas indígenas Paiter Suruí e não indígenas, o documentário conta também com a codireção de Louise Botkay e de João Moreira Salles.

Passados os meses iniciais da montagem, em 2023, após ter exibido a primeira versão, no Rio, para alguns integrantes do Coletivo, fomos a Porto Velho – Laís, João e eu – mostrar nova versão aos codiretores e participantes, convictos de que estávamos próximos da edição final. Fizemos duas exibições, a primeira para a ativista indígena Txai Suruí, protagonista do filme, e sua mãe, a indigenista e ativista socioambiental Neidinha (Ivaneide Bandeira). No dia seguinte, a exibição seria para o outro protagonista, Almir Suruí, pai de Txai, candidato derrotado a deputado federal na eleição de 2022, mas ele não pode comparecer. Os integrantes do Coletivo e alguns de seus parentes, no entanto, assistiram ao documentário.

Txai Suruí, ativista indígena de 28 anos (Crédito: Divulgação)

 

Após as duas sessões, Txai e os codiretores do Coletivo nos disseram, para nossa surpresa, que a cronologia real, seguida por nós na montagem, estava errada. Para eles, o filme deveria terminar com a derrota de Almir no primeiro turno, e não com a vitória de Lula, no segundo, como nos parecera natural. Naquele momento, já decorrido o primeiro ano do novo governo, ressaltar a derrota de um candidato indígena lhes parecia mais relevante do que celebrar a eleição de Lula.

Diante disso, na viagem de volta ao Rio, lá fomos nós ruminando as implicações de inverter a cronologia de modo a terminar o filme com a derrota do Almir no primeiro turno, opção que jamais nos teria ocorrido. Para Txai e os integrantes do Coletivo, termos respeitado a cronologia real dos dois turnos era decorrência de nossa submissão à lógica linear do homem branco, enquanto para o indígena, o decurso do tempo, segundo nos disseram, é circular.

Almir Suruí, ao centro, conferindo um boletim de urna no primeiro turno da eleição de 2022 (Crédito: Divulgação)

 

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Nota: Estarei de férias a partir de quinta-feira (3). A coluna volta a ser publicada em 5 de maio.

 


* É o fundador da revista piauí.

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