Morre Heloísa Teixeira, escritora e feminista, aos 85 anos
Trajetória da imortal da ABL foi marcada pela inclusão, nos estudos acadêmicos, de linguagens e formas de expressão de grupos socialmente discriminados. Após completar 80 anos, abandonou o sobrenome do ex-marido e assumiu o da mãe

A escritora e integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL) Heloísa Teixeira morreu, ontem, no Rio de Janeiro, aos 85 anos, por complicações de pneumonia e insuficiência respiratória aguda. Ela estava internada na Casa de Saúde São Vicente, na Gávea, na Zona Sul do Rio. Helô, como gostava de ser chamada, ocupava a cadeira 30 desde julho de 2023, que herdou da também escritora Nélida Piñon.
Foi a própria Academia que deu a notícia da morte de Heloísa, na conta que mantém no Instagram. Comentou, ainda, sobre a importância da presença da escritora entre os imortais.
"Nossa querida Helô foi imensa — e deixa um legado incontestável de pensamento crítico, generosidade e compromisso com uma cultura mais justa, plural e inclusiva. Eleita em 2023 para a cadeira 30 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo a escritora Nélida Piñon, Heloísa trouxe à ABL não apenas sua brilhante sagacidade intelectual, mas, também, um espírito de acolhimento e fraternidade que marcou profundamente todos com quem conviveu", frisa o comunicado da ABL.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a perda para a intelectualidade brasileira: "Quero expressar o meu pesar pelo falecimento de Heloísa Teixeira, uma das maiores pensadoras de nossa literatura e de nossa arte. Sua atuação sempre foi para além dos ambientes universitários: promoveu e deu luz a artistas antes considerados marginalizados e, em projetos nas periferias, fez a troca entre a cultura acadêmica e a do dia-a-dia de nosso povo. Heloísa foi, sobretudo, uma das mais importantes pensadoras do feminismo brasileiro, defensora incansável do papel de destaque que as mulheres têm o direito de ocupar em nossa sociedade. E teve sua trajetória reconhecida ao ocupar, na Academia Brasileira de Letras, a mesma cadeira que já foi de Nélida Piñon, a primeira mulher a presidir aquela casa", publicou em sua conta no X (antigo Twitter).
O governador do Estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), também recorreu ao X para lembrar da escritora. "Tivemos uma grande perda com a partida de Heloísa Teixeira, uma das grandes vozes do pensamento feminista no Brasil. Heloísa foi muito além dos livros — foi presença ativa na luta pelos direitos das mulheres, sempre com olhar atento às periferias e à cultura popular. Sua contribuição para a literatura, para a arte e para o nosso Rio e o país foi imensa. Como intelectual, como mulher e como cidadã, ela deixará um legado imortal, que continuará ecoando para as novas gerações", publicou no X.
O cantor, compositor e também imortal Gilberto Gil despediu-se de Helô em publicação no X. "Descanse em paz, querida Heloísa Teixeira, mente marcante da literatura brasileira, imortal da ABL", disse. Na mesma rede social, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, salientou que a "obra (de Heloísa) e seu compromisso com a literatura e a valorização das vozes femininas seguem vivos". Ainda no X, a Anistia Internacional Brasil lamentou a morte de Helô — de cuja entidade era conselheira.
A poetisa Ana Cristina César publicou, na conta que mantém no X, uma foto ao lado de Heloísa tirada em 1970 como forma de homenagear a escritora. O jornalista, escritor e curador Amir Labaki ressaltou que Heloísa "nos ajudou a entender as mutações e traduções do Brasil por mais de meio século. Ensinava a pensar, ia à luta, sacava antes, inspirava tanto". A Fundação Biblioteca Nacional, que é ligada ao Ministério da Cultura, salientou que "Heloísa contribuiu significativamente ao cenário cultural do Brasil, destacando-se não só como escritora, mas também como intelectual".
Cláudia Costin, economista e ex-secretária de Cultura do estado de São Paulo no governo de Geraldo Alckmin, publicou no X que "Heloísa Teixeira mudou rumos do feminismo e da crítica cultural no Brasil. Intelectual da Academia Brasileira de Letras, tinha 85 anos e abandonou o sobrenome Buarque de Hollanda já octogenária". A prefeita de Juiz de Fora (MG) Margarida Salomão (PT) publicou que "Heloísa foi uma personagem central da cena cultural do final do século XX, em particular por seu papel na organização do que chamamos de poesia marginal. Foi, ainda, importante voz independente na crítica literária. A República das Letras está de luto".
Nascida em Ribeirão Preto (SP), Heloísa mudou-se com a família para o Rio de Janeiro aos quatro anos. Filha de um médico e professor, e uma dona de casa, teve três filhos — os cineastas Lula, André e Pedro.
Novo nome
A escritora tomou posse na ABL em 28 de julho de 2023 com uma nova identidade. Onze dias antes da cerimônia, ela tinha deixado de usar o sobrenome do primeiro marido, o advogado e galerista Luiz Buarque de Hollanda. Aos 83 anos, passou a adotar o sobrenome materno Teixeira. A relevância do gesto para ela resultou em uma tatuagem nas costas com o nome completo.
O presidente da ABL, Merval Pereira, destacou que a acadêmica, quando foi eleita, assinava-se Heloísa Buarque de Hollanda. Mas, na diplomação, já era seu nome de nascimento.
"Tem uma hora que a ficha cai, principalmente, com a coisa feminista. De repente, falei: 'Caraca, tenho o nome do marido'", disse Heloísa, em entrevista, justificando porque readotou o nome da mãe.
Formada em letras clássicas pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), com mestrado e doutorado em literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-doutorado em sociologia da cultura na Universidade de Columbia, em Nova York, foi diretora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da Faculdade de Letras da UFRJ. Lá, coordenou o Laboratório de Tecnologias Sociais, do projeto Universidade das Quebradas, e o Fórum M, espaço aberto para o debate sobre a questão da mulher na universidade.
Reconhecida como uma das principais vozes do feminismo brasileiro, ressaltou, durante o discurso de posse, a disparidade de gênero dentro da própria ABL. "Ainda somos pouquíssimas nesta casa: apenas 10 mulheres foram eleitas acadêmicas, contra um total de 339 homens, o que reflete a desigualdade entre a eleição de homens e mulheres na ABL". A Academia foi inaugurada em 20 de julho de 1897.
Heloísa foi eleita com 34 dos 37 votos e fez questão de afirmar seu alinhamento com o projeto de renovação da ABL. "Esse atual projeto de abertura me fascina. E isso não é nem o começo. Tem que ter mulher, negro, índio. Porque são excelentes também. Isso é o Brasil, a democracia. Eu estou muito feliz de chegar nesse momento na Academia", afirmou na posse.
Na obra literária de Heloísa, destacam-se: 26 Poetas Hoje, de 1976, no qual reúne poemas da amiga Ana Cristina César, além de Cacaso e Chacal; Macunaíma, da literatura ao cinema, de 1978, sobre a influência do personagem do escritor Mário de Andrade nas artes brasileiras; Guia Poético do Rio de Janeiro, de 2001; Asdrúbal Trouxe o Trombone: memórias de uma trupe solitária de comediantes que abalou os anos 70, de 2004, sobre o histórico grupo que mudou a cena teatral brasileira; e Feminista, eu?, de 2022.
O velório será hoje, na sede da ABL, no Centro do Rio. Na homenagem, será exibido o documentário Helô, feito por seu filho Lula Buarque. (Com Agência Brasil)Saiba Mais
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