Há que desembolsar
Por Teresa Verde Pinho, Associate Creative director na TBWA\Chiat\Day New York


Por Teresa Verde Pinho, Associate Creative director na TBWA\Chiat\Day New York
Era uma vez o Joãozinho, um jovem criativo. Cheio de ideias, cheio de fome, cheio de sonhos, cheio de contas para pagar. Acordava cedo para o estágio não remunerado, almoçava uma sandes de atum, já sem atum, e à noite tentava encaixar um projecto pessoal entre freelas mal pagos e um colapso nervoso. Um dia, ouviu falar de um concurso de jovens criativos. Ali, poderia crescer. Trocar ideias, aprender com quem já tropeçou muito, até acertar.
Mas, como de costume, participar custava dinheiro, e ainda teria de espremer tempo entre turnos mal pagos e momentos de desespero para criar algo de valor. “Talvez para o ano”, pensou, enquanto fechava mais um banner em tempo recorde.
Ano após ano, a história repetia-se. Oportunidades surgiam, mas todas tinham um preço. E não era só o da inscrição. Era o preço de ter tempo, de ter energia, de conseguir criar sem ter de roubar horas ao sono ou ao último fiapo de sanidade mental. Até que um dia o Joãozinho virou João – um homem de 30 anos que já não era jovem o suficiente para concorrer, mas novo de mais para estar preso no mesmo lugar. Mas e se a agência do Joãozinho tivesse realmente apostado nele? Porque, se é para proclamar aos quatro ventos “Apoiamos a nova geração de talentos!”, então há que desembolsar.
É preciso mais do que uma palmadinha nas costas e um “boa sorte, miúdo”, enquanto a vida despeja prazos como tijolos. Crescer na carreira não devia ser um exercício de sobrevivência. Apoio real é pagar as inscrições nos concursos, dar flexibilidade de horário para que o talento não dependa exclusivamente da cafeína para funcionar e, já agora, permitir o acesso aos recursos da agência – um editor in-house, um banco de imagens decente, um computador que não peça um sacrifício humano para abrir o Photoshop. Pequenos detalhes, como não obrigar um jovem criativo a escolher entre investir no próprio futuro ou pagar a conta da luz. Coisas básicas para um sector que gasta milhões a berrar sobre responsabilidade social e empatia, mas que, na hora de investir nos seus próprios talentos, faz um mortal encarpado para fugir ao assunto.
Os DC, os planners, as duplas seniores, todos tiveram alguém que lhes abriu portas. Nem que tenha sido um chefe que simplesmente disse “vai lá, depois compensas o tempo”. Ajudar um jovem criativo a estar num evento, a conhecer pessoas, a trocar referências, é um investimento. Para a agência, para o mercado e para o talento que, sem esse empurrãozinho, talvez nunca chegue a brilhar onde poderia, porque está muito ocupado a tentar sobreviver.
E, por favor, dispensem o discurso fácil do “quem quer, dá um jeito”. Não dá. Há um limite para o número de “jeitos” que alguém pode dar antes de se estilhaçar. A criatividade não nasce do cansaço, não se alimenta de prazos absurdos e não floresce num ambiente onde pensar virou um luxo. Isto não é caridade, é estratégia. Isto não é um favor, é um win-win. Quem investe nos jovens criativos hoje colhe campanhas brilhantes amanhã.
Resumindo, ou apostam nos jovens criativos, ou poupem-nos dos posts inflamados no LinkedIn a celebrar prémios que a agência apoiou com exactamente zero euros e zero horas.
Artigo publicado na edição n.º 344 de Março de 2025