O negrume de Montenegro
(Presumo que a fotografia seja de Nuno Ferreira Santos) Nós, os adeptos de futebol, somos cruéis. Na impiedade com que avaliamos - julgamos - os desempenhos dos profissionais. Na impetuosidade com que deles nos apropriamos para os nossos escapismos, quais catarses - para os nossos afectos, mesmo paixões, mas também para as raivas, até ódios. No despudor com que os usamos como matéria-prima para significar a realidade, despersonalizando-os como meros lexemas. Disso brotam enunciados dogmáticos que esclarecem o Universo: "Divino como Vítor Damas", "Belo como Jordão", "Demoníaco como Alberto", "Tosco como José Eduardo", diz no já muito usado missal da congregação que frequento. Corolário desta religiosidade popular emanou uma teologia, ecuménica, que à totalidade dá sentido, cuja liturgia se expressa em idioma próprio, sacro, apenas verdadeiramente cognoscivel pelos iniciados: o futebolês. Foi nesse registo - cruel, repito, até desrespeitoso para com o aludido, e isso lamento, pois assim pecaminoso (mea maxima culpa, aliás "fiz penalti") - que em 4.1.2023 usei o bom nome do profissional Jorge Silas para significar Luís Montenegro, a este dizendo um evidente "erro de casting", uma má contratação, por assim dizer. E, na soberba do verdadeiro crente, insisti, em 28.9.2023, no púlpito pregando que "é já óbvio que Montenegro é uma espécie de Jorge Silas - o treinador de futebol que o Sporting contratara, crendo-o e anunciando-o como "the next big thing". E que veio a falhar rotundamente, por causas próprias e alheias". Espero que Jorge Silas - o qual me afiançam ser um homem decente e um honestíssimo e empenhado profissional, e ao qual desejo felicidades pessoais e sucessos laborais - me perdoe esta atrevida metáfora, se dela tenha tido ou vier a ter conhecimento. Não era algo pessoal, apenas a ladainha litúrgica a que acima aludo, cativando o que era consabido: as coisas no Sporting não lhe haviam corrido bem, acontece... E que era evidente que as coisas no PSD não iriam correr bem sob alguém com aquele perfil - o que não "acontece...", a política não é um jogo, não há "lesões" e "bolas à trave" ou "árbitros". Pois o futebolês tem imensos limites... teológicos. O rumo de Luís Montenegro nas últimas semanas é ... denotativo do seu perfil, político. O qual é evidente, desde que assomou. A sociedade portuguesa actual já não é a do tempo dos caciques - da prevalência de "O Senhor Morgado" do Conde de Monsaraz, que o grande Adriano Correia de Oliveira cantou. Pois esta já longa democracia é a era dos "facilitadores". Montenegros. Há atrevidos que consideram ser este país uma espécie de "PME" e que por isso lhe basta um líder "facilitador". Mas não é, tal como não é um quartel ou fragata, tropa pronta a perfilar-se diante de um oficial general. E ontem, aquilo que se passou na AR - um Primeiro-Ministro, seu governo e seu partido em míseras artimanhas, avanços e arrecuas, na arrogância do "bluff" com canino rabo entre as pernas - foi uma vergonha. Espero que calamitosa para uma "geração" partidária. Essa que agora se desdobra e desdobrará, comentadeira ou pomposa, a clamar ser alheia a "responsabilidade" desta trapalhada. E a qual não tem qualquer desculpa, estava desde há muito avisada: em 8.5.2023 um tipo que não é esquerdista tinha avisado - e a propósito do mesmo fluxo agora explodido - que o rumo de Montenegro era (e é, como se comprova) o de "Sócrates Vintage". E não tem desculpa, essa "geração" partidária, porque é ela própria apenas isto. Um negrume. Agora o de Montenegro. Amanhã o de um outro qualquer "facilitador". Espero, sinceramente, que a "moldura humana" não os deixe, sequer, "ir a penalties"...

(Presumo que a fotografia seja de Nuno Ferreira Santos)
Nós, os adeptos de futebol, somos cruéis. Na impiedade com que avaliamos - julgamos - os desempenhos dos profissionais. Na impetuosidade com que deles nos apropriamos para os nossos escapismos, quais catarses - para os nossos afectos, mesmo paixões, mas também para as raivas, até ódios. No despudor com que os usamos como matéria-prima para significar a realidade, despersonalizando-os como meros lexemas. Disso brotam enunciados dogmáticos que esclarecem o Universo: "Divino como Vítor Damas", "Belo como Jordão", "Demoníaco como Alberto", "Tosco como José Eduardo", diz no já muito usado missal da congregação que frequento. Corolário desta religiosidade popular emanou uma teologia, ecuménica, que à totalidade dá sentido, cuja liturgia se expressa em idioma próprio, sacro, apenas verdadeiramente cognoscivel pelos iniciados: o futebolês.
Foi nesse registo - cruel, repito, até desrespeitoso para com o aludido, e isso lamento, pois assim pecaminoso (mea maxima culpa, aliás "fiz penalti") - que em 4.1.2023 usei o bom nome do profissional Jorge Silas para significar Luís Montenegro, a este dizendo um evidente "erro de casting", uma má contratação, por assim dizer. E, na soberba do verdadeiro crente, insisti, em 28.9.2023, no púlpito pregando que "é já óbvio que Montenegro é uma espécie de Jorge Silas - o treinador de futebol que o Sporting contratara, crendo-o e anunciando-o como "the next big thing". E que veio a falhar rotundamente, por causas próprias e alheias".
Espero que Jorge Silas - o qual me afiançam ser um homem decente e um honestíssimo e empenhado profissional, e ao qual desejo felicidades pessoais e sucessos laborais - me perdoe esta atrevida metáfora, se dela tenha tido ou vier a ter conhecimento. Não era algo pessoal, apenas a ladainha litúrgica a que acima aludo, cativando o que era consabido: as coisas no Sporting não lhe haviam corrido bem, acontece... E que era evidente que as coisas no PSD não iriam correr bem sob alguém com aquele perfil - o que não "acontece...", a política não é um jogo, não há "lesões" e "bolas à trave" ou "árbitros". Pois o futebolês tem imensos limites... teológicos.
O rumo de Luís Montenegro nas últimas semanas é ... denotativo do seu perfil, político. O qual é evidente, desde que assomou. A sociedade portuguesa actual já não é a do tempo dos caciques - da prevalência de "O Senhor Morgado" do Conde de Monsaraz, que o grande Adriano Correia de Oliveira cantou. Pois esta já longa democracia é a era dos "facilitadores". Montenegros. Há atrevidos que consideram ser este país uma espécie de "PME" e que por isso lhe basta um líder "facilitador". Mas não é, tal como não é um quartel ou fragata, tropa pronta a perfilar-se diante de um oficial general.
E ontem, aquilo que se passou na AR - um Primeiro-Ministro, seu governo e seu partido em míseras artimanhas, avanços e arrecuas, na arrogância do "bluff" com canino rabo entre as pernas - foi uma vergonha. Espero que calamitosa para uma "geração" partidária. Essa que agora se desdobra e desdobrará, comentadeira ou pomposa, a clamar ser alheia a "responsabilidade" desta trapalhada. E a qual não tem qualquer desculpa, estava desde há muito avisada: em 8.5.2023 um tipo que não é esquerdista tinha avisado - e a propósito do mesmo fluxo agora explodido - que o rumo de Montenegro era (e é, como se comprova) o de "Sócrates Vintage".
E não tem desculpa, essa "geração" partidária, porque é ela própria apenas isto. Um negrume. Agora o de Montenegro. Amanhã o de um outro qualquer "facilitador".
Espero, sinceramente, que a "moldura humana" não os deixe, sequer, "ir a penalties"...