Calças Calvin Klein à borla? Sim: projeto de re-commerce dá segunda oportunidade a peças descartadas

As peças retiradas de montanhas de roupas descartadas no deserto do Atacama estão a ser vendidas apenas pelo preço do transporte numa iniciativa contra o descarte "racista e colonialista" de vestuário indesejado.

Mar 28, 2025 - 20:56
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Calças Calvin Klein à borla? Sim: projeto de re-commerce dá segunda oportunidade a peças descartadas

As peças retiradas de montanhas de roupas descartadas no deserto do Atacama estão a ser vendidas apenas pelo preço do transporte numa iniciativa contra o descarte “racista e colonialista” de vestuário indesejado.

Semanalmente, Bastián Barria percorre o deserto do Atacama em busca de roupas descartadas, muitas delas em perfeito estado. No dia 17 de março, 300 peças, incluindo de marcas como a Nike e Calvin Klein, foram disponibilizadas online gratuitamente. O primeiro lote esgotou em apenas cinco horas.

A iniciativa Re-commerce Atacama parte de uma campanha de consciencialização sobre o desperdício têxtil global, tendo surgido do desfile no deserto com roupas feitas de lixo. “Queremos que as pessoas se sintam envolvidas e sejam agentes de mudança”, indicou Barria, engenheiro civil e cofundador da Desierto Vestido (Deserto Vestido), uma organização dedicada à sensibilização para o desperdício têxtil.

O Chile recebe grandes quantidades de roupas de segunda mão, e cerca de 70% acabam em aterros clandestinos, já que a legislação proíbe o descarte têxtil em aterros sanitários. Imagens de montanhas de roupa viralizaram em 2023, e a queima destes resíduos gera riscos ambientais e de saúde para as comunidades locais.

Para combater o problema, Barria uniu-se à Fashion Revolution Brasil, à agência Artplan e à plataforma Vtex para recuperar e redistribuir as peças. Antes do lançamento, influenciadores como Dudu Bertholini divulgaram a iniciativa.

Já em abril será disponibilizado um novo lote, sendo que qualquer pessoa interessada pode adicionar o seu e-mail para ser notificada quando houver mais roupa disponível.

Fernanda Simon, diretora da Fashion Revolution Brasil, considera o projeto “um ato de ativismo que revela o que está por trás da moda”. Segundo ela, o consumo excessivo e a velocidade da produção tornaram o sistema insustentável. “Produzimos mais e mais rápido, sem transparência”, alerta.

Roupas descartadas de mercados como EUA, Europa e Ásia são despejadas no sul global, como no Chile e em Gana, onde praias são cobertas por tecidos. Simon classifica essa prática como “racista e colonialista” e reforça: “Esse desperdício prova que precisamos repensar urgentemente o modelo [de negócio] da moda.”