Val Kilmer, astro de “Batman Eternamente” e “The Doors”, morre aos 65 anos
Intérprete de Batman, Jim Morrison e Iceman em “Top Gun” enfrentava uma batalha pública contra o câncer de garganta


Ator de papéis icônicos
Val Kilmer, conhecido por seu carisma em cena e pela versatilidade com que interpretava personagens conflituosos e intensos, morreu na terça-feira (1/4) aos 65 anos, em Los Angeles. A informação foi confirmada por sua filha, a atriz Mercedes Kilmer. O ator morreu de pneumonia, após anos enfrentando complicações decorrentes de um câncer de garganta diagnosticado em 2015.
A carreira de Kilmer foi marcada por personagens que exigiam entrega física e emocional. Com frequência, interpretava homens em conflito interno, figuras autodestrutivas ou insondáveis. Ganhou destaque ainda nos anos 1980 com o papel do piloto Tom “Iceman” Kazansky em “Top Gun” (1986), onde contracenou com Tom Cruise sob direção de Tony Scott. Décadas depois, reapareceu no papel em “Top Gun: Maverick” (2022), emocionando o público em uma cena curta e silenciosa que refletia sua condição real de saúde.
Formação e perdas pessoais
Val Edward Kilmer nasceu em 31 de dezembro de 1959, em Chatsworth, subúrbio de Los Angeles. Filho de um engenheiro aeroespacial e de uma dona de casa, sofreu uma perda trágica aos 17 anos, quando seu irmão mais novo, Wesley, morreu afogado após uma convulsão. O trauma marcou o início de sua formação artística, quando passou a estudar na prestigiada Juilliard School, tornando-se o mais jovem admitido na divisão de teatro.
Antes do estrelato, atuou em peças de teatro, como “Slab Boys”, na Broadway, e em produções televisivas como o especial One Too Many, sobre alcoolismo juvenil. No cinema, estreou como protagonista da comédia satírica “Top Secret!” (1984), dos criadores de “Apertem os Cintos… o Piloto Sumiu”.
Dois anos depois, apareceu em “Top Gun” e sua carreira decolou. Em 1988 virou protagonista de aventura de grande orçamento, estrelando a fantasia “Willow: Na Terra da Magia”, escrita por George Lucas e dirigida por Ron Howard.
Mas foi no início dos anos 1990 que consolidou sua reputação como ator sério. Em “The Doors” (1991), de Oliver Stone, Kilmer encarnou o cantor Jim Morrison com tamanha precisão vocal e física que confundiu até os próprios integrantes da banda original. “Val Kilmer tem sempre tido um talento notável, que até agora tem sido amplamente ignorado”, escreveu o famoso crítico americano Roger Ebert à época.
Em seguida, voltou a trabalhar com Tony Scott em “Amor à Queima-Roupa” (1993), escrito por Quentin Tarantino, e destacou-se em “Tombstone” (1993) como o pistoleiro tuberculoso Doc Holliday, roubando cenas com um misto de fragilidade e brutalidade. “Ele está no patamar dos grandes atores americanos, como Pacino ou De Niro”, afirmou o diretor George Cosmatos sobre sua atuação.
De Batman a ator pornô
Em 1995, assumiu o papel de Bruce Wayne em “Batman Eternamente”, substituindo Michael Keaton. Embora o filme tenha arrecadado mais de US$ 330 milhões, sua participação como o Cavaleiro das Trevas foi única. Conflitos nos bastidores com o diretor Joel Schumacher e com o estúdio fizeram com que George Clooney fosse escalado para a sequência, “Batman & Robin” (1997). Apesar disso, Schumacher defendeu publicamente sua atuação: “Para mim, Val Kilmer foi o melhor Batman”.
Em outras atuações notáveis, viveu o capanga desagradável de Robert De Niro em “Fogo Contra Fogo” (1995), de Michael Mann, foi o assistente insano de Marlon Brando em “A Ilha do Dr. Moreau” (1996), de John Frankenheimer, assumiu o papel do ladrão romântico Simon Templar na adaptação cinematográfica da série “O Santo” (1997), de Phillip Noyce, viajou à Marte em “Planeta Vermelho” (2000) e deu vida ao detetive homossexual Gay Perry na homenagem de Shane Black ao filme noir, “Beijos e Tiros” (2005).
Kilmer também canalizou de forma impressionante o astro pornô cocainômano John Holmes em “Wonderland – Obsessão Alucinante” (2003), contracenou com Nicolas Cage em “Vício Frenético” (2009), de Werner Herzog, e estrelou “Twixt” (2011), de Francis Ford Coppola. Também escreveu e dirigiu o monólogo “Citizen Twain”, sobre Mark Twain, que levou aos palcos e adaptou para o cinema em 2019.
Câncer e reclusão
Com o agravamento do câncer, passou a aparecer menos em público e perdeu parcialmente a voz após uma traqueostomia. Em 2021, teve sua vida contada no documentário “Val”, exibido em Cannes e distribuído pela Amazon. O filme, feito com vídeos pessoais acumulados ao longo de décadas, revelou um artista profundamente comprometido com seu ofício, ainda que marcado por temperamento difícil e relações instáveis com colegas e diretores.
Ele continuou atuando até 2022, mas muitos papéis foram basicamente homenagens, como Bluntman, uma paródia de Batman em “Jay & Silent Bob Reboot” (2019), de Kevin Smith, e a pequena participação em “Top Gun: Maverick”, que se tornou sua despedida das telas em 2022.
Vida pessoal
Kilmer foi casado com a atriz britânica Joanne Whalley entre 1988 e 1996, com quem teve dois filhos: Mercedes e Jack. O casal se conheceu durante as filmagens de “Willow” (1988). Fora das telas, foi associado a celebridades como Cher, e manteve, por anos, uma propriedade de 6 mil acres no Novo México, que vendeu em 2011.